O Valor das Coisas

Conheça um pouco mais sobre o tema com o texto de James Zortéa, professor do curso de Realização Audiovisual da Unisinos e organizador da exposição

JAMES ZORTÉA
12 de Setembro de 2014 - 15:32 | Atualizado: 12 de Setembro de 2014 - 17:57

Cobertores sintéticos com estampas da natureza, bichos de pelúcia, coqueiros de plástico, libélulas luminárias de energia solar, posters de Jesus 3D, animais ferozes e mulheres sensuais estereoscópicos, isqueiros com pornografia, enchimentos de silicone para seios, chapéu guarda-chuva, chaveiros de caveiras com mandíbula articulada. ATENÇÃO: no interior do crânio emerge uma arcada com um dente de ouro e, no céu da boca, um letreiro avisa: made in China.

Da fábrica chinesa à banca de camelô, a famosa rota China-Paraguai-Brasil de muambas é uma extensa e complexa rede de trabalho, geralmente ilegal e informal, onde o transporte e a venda das mais variadas quinquilharias conecta milhares de pessoas por um circuito global de comércio.

[Obra de Leo Remor

É justamente de uma viagem ao Paraguai, ao atravessar a fronteira em busca do negócio da China, que os artistas Adrián Montenegro, Daniel Eizirik, Denis Rodriguez e Leonardo Remor carregam esforços em malas e sacolas cheias de muambas, para reviver a figura errante do antigo caixeiro-viajante. Surge a ideia de um personagem, um ambulante quixotesco que não só negocia o valor das coisas, mas também coloca em debate a resistência do fazer artístico frente ao gigante dos produtos de consumo. Qual o valor da muamba ao assumir o estatuto de arte? O que está posto em jogo quando o apelo das quinquilharias chinesas é atravessado pelo gesto dos artistas? O exercício do inútil pode criar sentido para o valor das coisas?

A instalação artística “O valor das coisas” também é proposta como um bazar, porém, no espaço de exposição do Subterrânea, as muambas encontram-se deslocadas dos habituais camelódromos e inseridas no território da arte, talvez, um aceno para as provocações que os ready-mades de Duchamp ou as pilhas de caixas Brillo de Andy Warhol trouxeram para ampliar a ideia e o circuito da arte. Além das mercadorias adulteradas pelos artistas, também encontramos rastros desse personagem do caixeiro-viajante. Fotografias, objetos, desenhos e anotações remetem à memória de um viajante que cria sentidos para escapar do esvaziamento da rotina e permanecer em trânsito agora dentro do Atelier Subterrânea.

Conheça a exposição

A abertura do evento acontece no próximo sábado, 13 de setembro, às 16h. A exposição receberá visitação até o dia 22 de outubro. Quem estiver interessado em conhecer o trabalho deve comparecer no  Atelier Subterrânea (Av. Independência, 745, subsolo – Porto Alegre) de segunda a sexta-feira, das 14h às 18h. Visita em outros horários: contato@subterranea.art.br