Projeto ‘Pracinhas nas Comunidades’ revitaliza espaços em Ocupações de São Leopoldo

Crédito: Isamara Allegretti

Fora das salas de aula da Unisinos, um exercício de empatia e escuta é feito nas ocupações de São Leopoldo. O projeto de extensão Pracinhas nas Comunidades é vinculado à Rede Solidária São Léo, composta por professores e alunos da Escola da Indústria Criativa e de outros cursos da instituição. A iniciativa visa ressignificar espaços e construir pracinhas para as crianças do município. A ação é realizada por alunos dos cursos de Gestão para Inovação e Liderança (GIL), Engenharias, Arquitetura e Serviço Social, em parceria com grupos de trabalho permanentes. A coordenação é das professoras Isamara Allegretti, Adriane Brill Thum e Marilene Maia.

Foi com a doação de brinquedos de uma pracinha que estava sendo desmontada que o projeto teve início. Quando soube da notícia, a professora do GIL, Isamara Allegretti, encontrou logo uma forma de buscar os brinquedos e montar a primeira praça da ocupação Justo. A ação marcou o início de um projeto que foi ampliado a partir da participação da ONG Moradia e Cidadania, formada por funcionários da Caixa. Com os seis brinquedos doados pela organização, foi possível construir pracinhas nas ocupações Steigleder e Renascer. “As pracinhas representam que tem gente morando nas comunidades – gente que quer ter uma vida com dignidade e direitos garantidos”, explica a docente do curso de Serviço Social, Marilene Maia.

O projeto transdisciplinar foi uma construção coletiva que usou dos pilares de cada curso para desenvolver um ambiente mais saudável para as crianças e os moradores. Mais do que um espaço para brincar, as praças representam um lugar de acolhimento e lazer – direito definido pela Constituição Federal de 1988. “Uma coisa é em aula a gente falar de direitos humanos, do aumento da desigualdade, que as pessoas estão passando fome, que a gente tá vivendo uma crise humanitária no país. Outra coisa é eles chegarem nessas comunidades, se depararem com essas realidades e não se mobilizarem – mas, pelo contrário – se verem chamados a contribuir em um processo que é de formação de cidadania. E para isso a gente precisa estar perto”, afirma Isamara.

Iniciada a partir da pandemia da Covid-19, a parceria entre o curso de Serviço Social e a Rede Solidária seguiu dentro do Pracinhas nas Comunidades. Ao longo do semestre, os estudantes de Serviço Social realizaram visitas e atividades de integração com os moradores.

Para identificar as demandas das comunidades, foi feito um projeto de cartografia social. “A cartografia social tem o objetivo de entender a realidade, fazer com que as pessoas do local se sintam acolhidas e cobrar pelos direitos nas políticas públicas”, explica a professora Adriane Brill Thum. O projeto reúne professores e acadêmicos de cursos de graduação e pós-graduação, secretarias do Meio Ambiente, da Educação, do Desenvolvimento Social, da Habitação e da Saúde de São Leopoldo e lideranças das comunidades.

Os estudantes das engenharias e arquitetura ficaram responsáveis pelo levantamento topográfico dos territórios e pelo planejamento de onde os brinquedos das praças ficariam. Além disso, colaboraram na divulgação da vaquinha, pintura dos pallets e do espalhamento da areia juntamente com os alunos do GIL.

Responsáveis pela horta comunitária, as melhorias no galpão comunitário e a revitalização da praça, os discentes também trabalharam na angariação de fundos. Com a divulgação da vakinha online, o grupo conseguiu arrecadar a quantia de sete mil reais. O dinheiro foi utilizado para comprar a areia, os mourões e contratar o grafiteiro Guilherme Soares para colorir as paredes da pracinha na ocupação Renascer.

Além da contribuição para a comunidade, os estudantes também tiveram ganhos pessoais na atividade. Responsável pelo grupo de estudantes que fez a arrecadação de recursos, Pedro Thoen, de 19 anos, pode ver como age uma liderança a partir de Adroildo Gonçalves, da Ocupação Renascer. O projeto também serviu para mudar a visão de Rainer Weyh, 21, sobre a área profissional. “Dinheiro não é tudo, muitas vezes receber o sorriso ou abraço de uma criança em troca do trabalho voluntário é mais valioso”, afirma o estudante do 4º semestre de Arquitetura e Urbanismo.

Protagonismo em cena

Apesar de serem coordenadas por uma rede de apoiadores, as pracinhas são consideradas construções coletivas, em uma parceria entre a população, a Universidade e as crianças. Durante todo o processo, o diálogo foi essencial para que os desejos dos moradores fossem atendidos. As crianças também puderam dar a sua opinião de onde os brinquedos deveriam ficar posicionados e como o grafite deveria ser feito. Natiele Quevedo da Silva, 22 anos, estudante do 7º semestre de Serviço Social, explica que é importante que a comunidade se sinta parte do processo porque nada é feito sem ela: “O projeto não é só feito para os moradores, mas com eles”.

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Crédito: Isamara Allegretti

No dia 30 de novembro, as crianças puderam desfrutar da nova pracinha da Ocupação Renascer. Com baldes de areia, bolos e quitutes feitos por moradores, comemoraram a inauguração de um espaço que representa não só brincadeiras, mas compartilhamento e protagonismo. Adroildo conta que a ideia da pracinha foi também uma forma de amenizar os efeitos da pandemia. “As crianças não estavam indo pra escola e o psicológico delas já tava bem atingido. Então surgiu a ideia da pracinha para que elas pudessem sair um pouco do estresse da pandemia”, aponta.

As professoras Isamara, Adriane e Marilene já têm planos para o próximo ano. Ainda em janeiro de 2022, os problemas de saneamento básico da Ocupação Renascer devem ser resolvidos com a verba que sobrou da vakinha. Nos próximos semestres, as turmas deverão dar continuidade ao trabalho nas outras 13 ocupações de São Leopoldo.

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