Aula Inaugural de Design debate negritude e resgata memórias do setor criativo 

Representantes do coletivo PretADG e egressos convidados destacaram a contribuição de profissionais negros no design brasileiro ao longo da história e a importância da ampliação da participação de alunos negros na graduação da área

No dia 23 de setembro, o campus de Porto Alegre sediou a Aula Inaugural da Graduação em Design. O tema deste semestre foi “reflexões sobre negritude e design”. O evento contou com a participação do coletivo PretADG, que reúne profissionais de diferentes especialidades com o objetivo de promover ações para combater o racismo estrutural no mercado criativo. Representando a organização, estiveram presentes Carla Piaggio, designer gráfica e especialista em produção editorial, e Jonathan Prateat, designer, pesquisador e editor. 

Além do PretADG, o debate foi enriquecido com contribuições por egressos de Design da Unisinos. Estiveram presentes a jornalista Carol Anchieta, mestra em design estratégico para inovação social; a designer Rosana Dutra Menezes, mestranda em design; e o escritor Marcos Caetano Correa, mestre em design estratégico. 

“É muito importante trabalhar narrativas que nem sempre estiveram presentes na nossa área”, disse Maura Della Flora Flores, coordenadora do curso de Design. “Esse debate nos auxilia a repensar modelos educacionais dentro do curso e a questionar padrões impostos ao longo dos anos no campo e nos modelos acadêmicos”, complementou.  

Formação plural no design 

O evento iniciou com a apresentação do projeto “Negras Memórias do Design Brasileiro”, desenvolvido pelo PretADG, que busca resgatar, documentar e enaltecer a história e a contribuição de profissionais negros no setor criativo nacional. O estudo identifica a atuação negra desde o período colonial até os dias atuais em áreas como design gráfico, editorial, tipografia, ilustração, design de produtos, tecelagem, moda e cenografia. 

Nomes como Francisco de Paula Brito, Arthur Arézio da Fonseca, Maria Lídia Magliani, Goya Lopes e Maria do Carmo Paulino, entre outros, são homenageados por sua contribuição para a construção da identidade e da estética do Brasil. “Falar sobre a visibilidade de designers negros brasileiros não é apenas reparar o passado, mas reconhecer que o fazer criativo dessas pessoas trouxe saberes e tecnologias que estruturam o nosso mercado até hoje”, ressaltou Carla. A designer destaca que a influência da cultura negra está na tipografia, nas estampas, na arquitetura e na forma de pensar soluções. “Resgatar esses nomes é entender que as bases do design brasileiro sempre foram negras, e esses saberes continuam vivos e pulsando na produção atual.”

Crédito: Giovana da Rosa Marques

Para Jonathan, a discussão sobre negritude deve fazer parte da formação acadêmica em design, ampliando a compreensão sobre diferentes culturas, estéticas e formas de produzir conhecimento na área. “É na universidade que a gente tem que falar sobre negritude no design, aliás, sobre todas as esferas possíveis e dimensões que sejam possíveis sobre design”, observou. Para o designer, é preciso quebrar a ideia de que há uma forma e um tipo universal de pessoa, de estética e de fazeres do design. O pesquisador também destacou a importância de ampliar o debate para diferentes grupos e perspectivas dentro da área. “A presença dessas discussões na academia pode contribuir para uma formação mais plural e alinhada à diversidade da sociedade”, avaliou. 

Crédito: Giovana da Rosa Marques

Ampliação da representatividade negra na academia 

Após a apresentação, os egressos convidados iniciaram um debate e compartilharam experiências no ambiente acadêmico e no mercado de trabalho. Rosana falou sobre sua atuação como designer na Rede de Cidades + Inteligentes e sobre sua pesquisa “Design de Serviço e Equidade”, que investiga o acesso de mães negras solo a redes e serviços de acolhimento na cidade de Porto Alegre. 

A egressa destacou a importância da representatividade negra no ambiente acadêmico e relembrou as dificuldades de ser uma das poucas alunas negras durante graduação. “Eu era a única estudante negra entre 40 alunos. Discutir a negritude no design é mais do que necessário para questionar a falta de representatividade e promover mudanças no ambiente universitário”, afirmou.

Crédito: Giovana da Rosa Marques

Marcos, conhecido como Tônio Caetano, também compartilhou sua trajetória e as dificuldades vivenciadas como homem LGBT e negro no ambiente universitário. Atualmente, sua produção volta-se à discussão de projetos para a construção de cidades antirracistas, ao mesmo tempo em que defende a ampliação da representatividade negra no meio acadêmico.  

Ao relembrar sua experiência durante a pós-graduação, o escritor destacou a escassez de referências negras em sua formação. “Durante o mestrado, tive contato com uma designer negra apenas no último semestre do curso”, comentou. Para Tônio, é preciso ampliar a presença e a participação de pessoas negras no design. “A negritude no design permite reconhecer diferentes formas de conhecer, criar, pensar e desenvolver projetos, ampliando as perspectivas dentro da área.”

Crédito: Giovana da Rosa Marques

Carol é editora e curadora na revista Corpo Futuro, especializada em arte. É também gestora do Design Ativista, movimento ligado ao projeto Mídia Ninja, que utiliza as ferramentas do design como instrumentos de transformação social, política e cultural. Em sua participação, a jornalista abordou sobre o seu trabalho no jornalismo cultural, em que prioriza a arte e todas as expressões como forma de pertencimento. 
 
Segundo ela, não apenas a negritude deve ser pauta em debates, mas também a conscientização política para transformar essa realidade. “Devemos estar em todos os setores da sociedade. Os negros são mais da metade da população desse país, e é impossível pensar em qualquer tipo de evolução sem haver um debate sério sobre a negritude e a consciência política em todos os espaços”, afirmou. 

Crédito: Giovana da Rosa Marques

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