A Unisinos preparou uma série de atividades ao longo de 2026 para marcar os 400 anos das Missões Jesuítico-Guaranis. A programação reúne exposições, debates acadêmicos, celebrações religiosas e projetos de pesquisa e residência artística que revisitam o legado missioneiro sob diferentes perspectivas, valorizando o encontro entre culturas, a produção de conhecimento e a memória histórica.
A proposta é promover uma reflexão contemporânea sobre a relação entre jesuítas e povos guarani, compreendida não apenas como um episódio colonial, mas também como uma experiência de intercâmbio cultural, produção artística e construção coletiva de saberes. As ações dialogam com o compromisso da Universidade jesuíta de promover o encontro entre conhecimentos e contribuir para a formação de uma sociedade mais justa e reconciliada.
Exposição no Memorial Jesuíta
De 22 de abril a 29 maio, a Unisinos Porto Alegre recebe a exposição “Um encontro que escreveu uma história da civilização”, no hall de entrada da Torre Educacional do campus. A mostra integra as comemorações dos 400 anos das Reduções Jesuítico-Guarani (1626–2026) e convida o público a refletir sobre o encontro entre diferentes culturas, evidenciando a troca de saberes e as contribuições técnico-científicas trazidas pelos jesuítas às populações locais.
Realizada pelo Memorial Jesuíta Unisinos, a exposição apresenta, pela primeira vez em Porto Alegre, dez esculturas da Coleção Jesuíta de Estatuária Missioneira. A partir da memória fúnebre dos povos indígenas do Xingu, com o tronco do Kuarup, a mostra propõe um olhar sensível sobre a madeira das estátuas missioneiras como elo entre tradições indígenas que articulam, nesse mesmo material, religião, força e memória.

Com uma abordagem histórica e contemporânea, a exposição destaca o diálogo cultural, espiritual e científico desenvolvido nas Missões, conectando passado e presente. Na estatuária missioneira, encontra-se um importante registro da transversalidade que marcou a ação da Companhia de Jesus, orientada pelo ideal de serviço à fé e à justiça, em favor de um mundo mais humano e reconciliado.
Ciclo de estudos sobre mulheres indígenas e saberes missioneiros
A programação também inclui um ciclo de estudos online dedicado ao tema “Mulheres indígenas e Missões Jesuítico-Guaranis. Saberes, memórias e heranças culturais”,promovido pela Universidade e realizado pelo Instituto Humanitas Unisinos (IHU). A iniciativa propõe uma análise crítica das Missões Jesuítico-Guaranis no Brasil meridional e no sul da América Latina, deslocando o foco tradicional das narrativas históricas para evidenciar o protagonismo, os saberes, os silenciamentos e as heranças culturais das mulheres indígenas nesse processo.
Transmitidos pelo canal do IHU no YouTube, os encontros acontecerão sempre das 10h às 11h30, reunindo participantes em diversas áreas do saber para refletir sobre as relações entre cosmologias e saberes guarani e o pensamento jesuítico. As conferências discutem os encontros e as tensões que marcaram a experiência missioneira, bem como suas reverberações contemporâneas nas disputas por memória, identidade e justiça epistemológica. Confira as datas previstas.
- 1º de abril (quarta-feira)
O patrimônio silenciado das mulheres indígenas nas Missões
Com o professor da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), Tony Boita.
- 9 de abril (quinta-feira)
Missões Jesuítico-Guaranis. Colonização de gênero e sexualidade
Com o docente da Universidade Federal de Sergipe, Jean Tiago Baptista
- 14/04 (terça-feira)
Os conceitos, as palavras e as almas. Perspectivas dos guaranis e dos jesuítas
Com a professora do Instituto de Estudos Avançados da USP, onde coordena o Grupo de Pesquisa Tempo, Memória e Pertencimento, Marina Massimi.
O ciclo busca ampliar o olhar sobre a história das Missões ao destacar a participação e o protagonismo das mulheres indígenas, promovendo uma reflexão crítica sobre memórias, patrimônios e vozes historicamente marginalizadas na experiência missioneira.
Celebração religiosa marca a memória missioneira
Outro momento importante da programação será a missa em celebração aos 400 anos das Missões Jesuítico-Guaranis, que acontecerá no dia 4 de maio, 19h, na Igreja da Ressurreição, no Colégio Anchieta, em Porto Alegre. Celebrada por Dom Odair Gonsalves dos Santos, a missa reunirá a comunidade acadêmica, parceiros institucionais e o público em geral em um momento de fé, memória e reflexão sobre um dos capítulos mais significativos da história da presença jesuíta na região.
Exposição do projeto TAPE destaca arte indígena contemporânea

A exposição em homenagem aos 400 anos das Missões Jesuítico-Guaranis será inaugurada no dia 22/5, na Fundação Ecarta (Av. João Pessoa, 943 – Farroupilha, Porto Alegre), reunindo arte contemporânea, pesquisa acadêmica e memória histórica em um projeto inédito.
Desenvolvida a partir da residência artística do artista Xadalu Tupã Jekupé na Unisinos, a mostra propõe um olhar sensível e acessível sobre o chamado Barroco Guarani, resultado do encontro entre culturas indígenas e europeias a partir do século XVI.
Com cerca de dez obras, a exposição percorre diferentes períodos — do pré-colonial ao contemporâneo — abordando temas como a chegada dos jesuítas, as guerras guaraníticas e os processos de resistência e transformação cultural. A produção visual de Xadalu, um dos principais nomes da arte indígena contemporânea no país, é marcada por uma linguagem direta e iconográfica influenciada pela arte urbana, dialoga com públicos diversos, permitindo uma leitura imediata das imagens.
Em paralelo, o curador Aldones Nino, responsável pela fundamentação histórica, pelas leituras e pela curadoria editorial, desenvolve textos que aprofundam as narrativas históricas e conceituais presentes nas obras. Diferente de abordagens tradicionais, aqui a escrita não orienta a criação artística, mas surge como desdobramento dela, ampliando seus sentidos e estabelecendo uma ponte entre universidade e sociedade. Também integra a residência a assistente artística Isabelle Foliatti Ramalho.
Guiado pelo conceito de “Tape” — palavra guarani para “caminho” —, a projeto propõe um percurso por memórias e narrativas muitas vezes invisibilizadas, reafirmando a força e a continuidade da cultura guarani ao longo do tempo. A exposição, assim, não apenas celebra um marco histórico, mas também apresenta novas formas de ver, compreender e sentir o legado das missões na contemporaneidade.
Projeto de pesquisa em parceria com a Sedac fortalece a memória missioneira
As comemorações também impulsionam a criação do projeto “Missões Jesuítico-Guaranis: História, Memória e Patrimônio”, desenvolvido pela Unisinos em parceria com a Secretaria da Cultura do Rio Grande do Sul (Sedac). Com duração de 36 meses (2026–2028) e investimento de R$ 4,1 milhões do Governo do Estado, a iniciativa se consolida como um programa estratégico de educação patrimonial, voltado à valorização do legado missioneiro.
A iniciativa tem como foco a região das Missões e articula um amplo conjunto de ações culturais, educativas e de pesquisa, envolvendo instituições de memória, comunidades indígenas, agentes culturais, educadores e a comunidade em geral. A proposta é fortalecer redes de colaboração, ampliar o acesso ao conhecimento e promover a valorização da história das Missões Jesuítico-Guaranis, incentivando sua presença nos espaços educativos e no cotidiano da população.
As ações do projeto buscam qualificar o conhecimento sobre a história local por meio da educação patrimonial e oferecer subsídios para a promoção e valorização desse patrimônio, com potencial para impulsionar o desenvolvimento regional. A iniciativa também se apoia em pesquisas desenvolvidas por professores da Unisinos, que contribuem para renovar o conhecimento histórico sobre as Missões Jesuítico-Guaranis. Nesse contexto, destaca o protagonismo indígena e reconhece as comunidades contemporâneas como coautoras de diversas atividades.
Conduzida por uma equipe de pesquisadores da Universidade, com apoio técnico-científico da Sedac e participação de instituições públicas, de ensino e culturais, a iniciativa aposta em abordagens interdisciplinares e na construção coletiva do conhecimento, com base no respeito, na interculturalidade e na coautoria. Ao mesmo tempo em que resgata o passado, o projeto dialoga com os desafios contemporâneos e contribui para projetar novas possibilidades de desenvolvimento cultural, turístico e educacional para a região missioneira.
Um legado que inspira o presente
Celebrar os 400 anos das Missões Jesuítico-Guaranis é reconhecer uma herança viva que segue presente na atuação da Unisinos. Mais do que revisitar o passado, a programação destaca o protagonismo dos povos originários, promove o diálogo entre saberes e propõe reflexões sobre os desafios contemporâneos. Nesse contexto, o Memorial Jesuíta Unisinos se consolida como um dos principais espaços de preservação, pesquisa e difusão desse legado no país. Criado em 2021, reúne um amplo acervo documental, artístico e cultural da Província dos Jesuítas do Brasil, com obras de elevado valor histórico e bibliográfico.

Entre os destaques estão coleções raras que vão do século XV ao XIX e um conjunto expressivo de documentos sobre as Missões Jesuítico-Guaranis, como microfilmes da Coleção D’Angelis, Cartas Ânuas e outros registros históricos. O acervo inclui ainda títulos publicados, imagens dos Sete Povos das Missões e conteúdo em áudio dedicados ao tema.
Na área artística, sobressai a coleção de estatuária missioneira, acompanhada de materiais arqueológicos que ajudam a compreender a dimensão cultural e simbólica das reduções.
Mais do que preservar a memória, o Memorial se consolida como um espaço de produção e circulação de conhecimento, incentivando novas leituras sobre o encontro entre culturas e suas reverberações no presente.
O Memorial Jesuíta Unisinos é aberto à visitação, mediante agendamento pelo e-mail memorialsj@unisinos.br.