Com um ano de execução, o Projeto Guaíba consolida uma importante etapa na produção de conhecimento sobre os impactos das enchentes históricas de maio de 2024 no sistema Delta do Jacuí–Lago Guaíba–Laguna dos Patos. Desenvolvido na Unisinos com recursos da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e financiamento da Petrobras, o projeto reúne pesquisadores da Unisinos, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (FEPAM).
A iniciativa surgiu da necessidade de compreender como eventos hidrológicos extremos modificam a morfologia do fundo do Lago Guaíba, a distribuição dos sedimentos e a evolução geológica recente de um dos principais sistemas hídricos do Sul do Brasil. Segundo o coordenador do projeto, o geólogo José Oliveira, a dimensão das enchentes de 2024 revelou o quanto ainda há para conhecer sobre os efeitos desses eventos extremos no ambiente submerso. “O projeto surgiu da necessidade de investigar quanto sedimento foi mobilizado, onde ocorreram erosão e deposição e de que maneira essas mudanças podem afetar o funcionamento do sistema Delta do Jacuí-Guaíba–Patos”, explica.

Ao longo do primeiro ano, a equipe concentrou esforços na construção de uma ampla base integrada de dados geológicos e geofísicos. Foram compiladas 54 linhas sísmicas, totalizando aproximadamente 482 quilômetros, além de informações provenientes de 126 sondagens. As novas campanhas de campo acrescentaram outras 94 linhas sísmicas, somando cerca de 753 quilômetros de levantamentos, além de dados batimétricos, sonográficos, de radar de penetração no solo (GPR), imagens obtidas por drones, inspeções com veículo subaquático operado remotamente (ROV) e amostragens sedimentológicas. De acordo com Oliveira, esse conjunto de informações permite reconhecer com elevado nível de detalhe a morfologia do fundo do lago, as camadas sedimentares, canais, áreas dragadas, estruturas submersas e diferentes feições associadas aos processos de erosão e deposição.
As primeiras análises já identificaram feições compatíveis com processos localizados de erosão, transporte e deposição de sedimentos, especialmente na região do Delta do Jacuí e em corredores preferenciais de fluxo. No entanto, a equipe ressalta que a extensão dessas alterações e sua relação direta com as enchentes de 2024 ainda estão em avaliação. Outro resultado que chamou a atenção dos pesquisadores foi a complexidade do fundo do Lago Guaíba. Os levantamentos mostram que o ambiente submerso é formado por canais, depressões, escarpas, formas de leito, estruturas rochosas, áreas dragadas e interferências antrópicas, revelando uma dinâmica muito mais complexa do que se imaginava.
Um dos principais diferenciais do Projeto Guaíba é a possibilidade de comparar os dados atuais com levantamentos realizados pela FEPAM em 2018, antes das enchentes. Essa base histórica permite identificar, de forma direta, as transformações ocorridas após o evento extremo, tornando possível reconhecer mudanças na morfologia e na distribuição dos sedimentos com elevado grau de precisão. “Poucos sistemas aquáticos brasileiros dispõem de uma base comparativa dessa abrangência”, destaca o coordenador.
Embora tenha caráter científico e não tenha como objetivo oferecer soluções imediatas para a prevenção de enchentes, o projeto produzirá informações que poderão subsidiar estudos voltados à modelagem hidrodinâmica, engenharia, monitoramento ambiental e gestão dos recursos hídricos. Os pesquisadores também buscam verificar se as enchentes de 2024 deixaram um registro permanente na história geológica da região. “Historicamente e hidrologicamente, as enchentes de 2024 representam um marco inequívoco. Geologicamente, existe a possibilidade de que o evento tenha produzido um registro sedimentar e estratigráfico importante, incorporado definitivamente ao registro geológico da área”, afirma Oliveira.
Nos próximos anos, a equipe dará continuidade ao processamento e à interpretação dos dados geofísicos, ampliará a coleta de sedimentos e a recuperação de testemunhos, além de integrar essas informações aos levantamentos históricos. Entre os produtos previstos estão mapas atualizados da distribuição de sedimentos, modelos digitais do fundo, seções estratigráficas e análises dos padrões de erosão e deposição. A síntese dos resultados está prevista para julho de 2028, com divulgação de resultados parciais ao longo da execução do projeto, conforme as diretrizes institucionais e contratuais.
Além de ampliar o conhecimento sobre a dinâmica do sistema Delta do Jacuí–Lago Guaíba–Laguna dos Patos, o Projeto Guaíba contribuirá para a formação de estudantes e pesquisadores, o desenvolvimento de metodologias integradas de investigação e o fortalecimento da infraestrutura científica da Unisinos, consolidando o papel da Universidade na produção de conhecimento aplicado aos desafios ambientais enfrentados pela sociedade.