Pesquisa liderada por estudante brasileira desafia hipótese sobre extinção de organismos marinhos na Antártica

Estudo indica que organismos marinhos resistiram às mudanças globais extremas nos períodos Cretáceo e Paleógeno, pré e pós extinção dos dinossauros

A estudante e pesquisadora da Unisinos, Bruna Poatskievick Pierezan, por meio do Projeto Paleoclima do ITT Oceaneon, que visa reconstruir as condições climáticas registradas em mares rasos ao redor da Antártida, entre 13 e 65 milhões de anos atrás, fez uma descoberta que vem chamando a atenção da comunidade científica internacional, especialmente na área da Geologia. Durante anos, especialistas acreditavam que não havia registros de crinoides antárticos (organismos marinhos conhecidos como “lírios-do-mar”) entre os períodos Cretáceo e Paleógeno, antes e depois da extinção dos dinossauros.

O estudo, centrado em fósseis encontrados na Ilha Seymour, também conhecida como Ilha Marambio, indica que esses organismos sobreviveram e continuaram existindo sem interrupção entre épocas marcadas por extinções e mudanças globais extremas. A descoberta sugere que a Antártica pode ter atuado como um “refúgio ecológico para a vida marinha” durante uma das fases mais turbulentas da história da Terra.

Enquanto espécies desapareciam em massa em outras regiões do planeta, a vida marinha antártica pode ter resistido sob as águas frias do continente, ainda pouco exploradas do ponto de vista ecológico.

“Esse trabalho mostra que ainda há muitas lacunas sobre a história da vida na Antártica. Encontrar evidências dessa continuidade amplia nossa compreensão sobre como os organismos responderam a um dos maiores eventos de extinção da Terra”, destaca Bruna.

Crédito: Eliane de Morais Schmitz

Além de oferecer novas pistas sobre a sobrevivência e a adaptação de organismos marinhos, os resultados da pesquisa contribuem para o entendimento da evolução da fauna na Antártica e podem auxiliar cientistas na identificação de padrões de resistência e recuperação da vida diante de mudanças ambientais extremas.

Pesquisa reúne especialistas de diferentes países

O estudo foi publicado na revista Gondwana Research, periódico de elevado impacto científico, categorizado como Qualis CAPES A1, classificação máxima concedida pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) do Ministério da Educação (MEC) a revistas científicas. Ele representa revistas de excelência internacional, alto fator de impacto, rigoroso processo de revisão por pares e é amplamente reconhecido como uma das mais prestigiadas revistas internacionais na área das Geociências.

“Publicar os resultados em uma revista com esse reconhecimento internacional reforça a relevância da pesquisa e amplia a visibilidade do conhecimento produzido no Brasil sobre a Antártica”, afirma a pesquisadora.

O Projeto Paleoclima é financiado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), por meio do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR). A pesquisa está vinculada a um edital do programa, que já foi renovado em duas ocasiões, demonstrando a continuidade e a relevância científica do projeto.

Na Unisinos, a pesquisa envolve o Instituto Tecnológico de Paleoceanografia e Mudanças Climáticas (ITT Oceaneon), que disponibiliza infraestrutura laboratorial e suporte técnico, e o Museu de História Geológica do Rio Grande do Sul (MHGEO), responsável pela catalogação, curadoria e preservação do acervo de materiais provenientes das expedições antárticas, garantindo a organização e a conservação das amostras utilizadas nas pesquisas.

O estudo também contou com a participação de mais nove pesquisadores da área:

Mariusz A. Salamon, geólogo, professor e pesquisador da University of Silesia in Katowice, na Polônia;

Leslie Manríquez Márquez, geóloga e pesquisadora do Instituto Antártico Chileno (INACH), no Chile;

Bruna Camila Schneider, engenheira geóloga e pesquisadora do ITT Oceaneon;

Marlone Heliara Hunnig Bom, química e pesquisadora do ITT Oceaneon;

Rodrigo do Monte Guerra, geólogo e pesquisador do ITT Oceaneon;

Rodrigo Scalise Horodyski, geógrafo, professor de Paleontologia e coordenador do Museu de História Geológica da Unisinos;

Karlos Guilherme Diemer Kochhann, geólogo, pesquisador do ITT Oceaneon e do Helmholtz Centre for Ocean Research Kiel (GEOMAR), na Alemanha;

Gerson Fauth, geólogo, professor da Unisinos e coordenador do ITT Oceaneon; Przemysław Gorzelak, geólogo e pesquisador do Institute of
Paleobiology, Polish Academy of Sciences, na Polônia.

Participação em congresso na Noruega

O impacto da pesquisa resultou na seleção do trabalho para apresentação oral na SCAR Open Science Conference 2026, realizada em agosto, em Oslo, na Noruega. Considerado um dos principais eventos científicos internacionais dedicados à pesquisa antártica, o congresso reúne pesquisadores de referência de diferentes países.

Arquivo pessoal

O Projeto Paleoclima foi representado por quatro pesquisadores: Bruna Poatskievick Pierezan, Rodrigo do Monte Guerra, Karlos Guilherme Diemer Kochhann e Gerson Fauth. A participação levará ao cenário internacional resultados de pesquisas desenvolvidas no Brasil sobre a história ambiental e geológica da Antártica.

Próximos passos da pesquisa

Os próximos passos da pesquisa envolvem investigar os aspectos preservacionais dos fósseis de crinoides, buscando compreender como as condições ambientais e climáticas específicas da Antártica, ao longo de milhões de anos, influenciaram os processos de fossilização.

Além disso, os pesquisadores esperam identificar diferentes padrões de preservação daqueles observados em outras regiões, contribuindo para uma melhor compreensão da evolução dos ecossistemas marinhos e da história geológica do continente. “Agora queremos entender por que esses fósseis foram preservados dessa forma e o que isso revela sobre os ambientes antárticos do passado. Cada nova resposta também abre novas perguntas para a pesquisa”, conclui Bruna.

O nosso website usa cookies para ajudar a melhorar a sua experiência de utilização.

Aceitar