Pensando a inclusão na aprendizagem

Projeto desafia participantes a ampliarem seus conceitos e lidarem com as diferenças

RENATA CARDOSO

Há mais de 20 anos, pensando as múltiplas questões que envolvem a aprendizagem, o Programa Educação e Ação Social (Educas), atende crianças e jovens com dificuldades escolares sob a perspectiva da inclusão. No projeto, a inclusão é pensada de forma abrangente. “Olhamos para os sujeitos a partir do seu lugar da diferença, que não é mais ou menos ruim”, explica Melissa Muller, psicóloga e coordenadora do projeto.

Crédito: Brayan Martins

O Educas tem vários diferenciais, um deles, é o trabalho interdisciplinar. “A oportunidade de compartilhamento entre os campos da Educação e a área da Saúde, pelo olhar da Psicologia, agrega para pensarmos esses sujeitos a partir de diferentes lugares”, declara Melissa, que durante sua formação também foi estagiária do projeto. “Eu carrego na EDUCAS minha forma de atuar essa experiência e percebo o quanto foi decisivo ter trabalhado em um projeto social, conhecendo as diferentes realidades”, lembra. Outro ponto importante do projeto é não trabalhar com a ideia de reforço escolar, mas sim para que as crianças vençam suas dificuldades e passem a aprender. “Tentamos reposicionar esses indivíduos em um discurso que é sobre impossibilidades, e construir outra relação com o conhecimento sobre o aprender e sua relação com o mundo”, salienta a coordenadora.

Luís Felipe Kasper Schneider já passava da metade do curso de Física quando resolveu migrar para a Pedagogia. O estágio no Educas é sua primeira experiência na área. Para ele, o atravessamento entre os campos enriquece a experiência tanto para os estagiários quanto para o público atendido. “Quando organizamos uma atividade precisamos pensar de onde essa criança vem, qual a realidade dela. Precisamos pensar não só na realidade social, mas também na realidade psicológica. Isso eu aprendi aqui no Educas”, conta. Para o estudante, o estágio tem sido transformador. “O projeto me fez perceber que inclusão é muito mais do que eu imaginava, me fez refletir sobre meu trabalho como pedagogo em todos os processos de ensino-aprendizagem”, comenta.

Bárbara Flores, também é estagiária do projeto e está no 7° semestre de Psicologia. “No Educas, eu percebi que não há como falar de educação e pedagogia sem falar dos aspectos emocionais. A maioria dos jovens atendidos não tem diagnóstico de alguma doença, mas passaram por traumas que impactam a aprendizagem, como a perda de um pai, de um irmão, ou uma situação de vulnerabilidade”, frisa. Para a estudante, que pretende trabalhar especialmente com adolescentes, a experiência no projeto a ajudou a definir sua carreira e a pensar a sociedade como um todo.

Como funciona

As crianças e jovens chegam até o projeto, geralmente, pelas escolas ou por serviços de saúde. Além de trabalhar com os jovens, as famílias e os professores também são convidados a participar, formando um tripé: sujeito, família, escola. O compartilhamento entre as diferentes áreas durante os atendimentos dos grupos é baseado na horizontalidade. Os estagiários formam duplas, sendo um de psicologia e outro de licenciatura (comumente da pedagogia), para coordenar os trabalhos com o objetivo de que esses diferentes olhares possam se complementar, oferecendo um atendimento mais integral.

Há cinco anos, o escopo do projeto foi ampliado para trabalhar com alfabetização de um grupo de mulheres adultas da Ocupação do Justo, em São Leopoldo, que já tem uma relação com outro projeto da Unisinos, o Tecnosociais. Isso demonstra que a ação social integrada fortalece as comunidades assistidas, além de proporcionar uma experiência de formação mais completa para os graduandos da universidade. Em 2018, 19 alunos estiveram envolvidos no projeto.