Islamismo, violência e discriminação

Professor Mohamed Arafa ministra duas conferências sobre o assunto na Escola de Direito

BETINA ALBÉ VEPPO - ESPECIAL

Compartilhe esta página

Passados 16 anos do ataque às Torres Gêmeas, entre outros eventos extremistas acontecidos desde então, e que geram muitas discussões polêmicas sobre o Oriente Médio e suas complexidades, o Professor Mohamed Arafa mostra outro olhar sobre a região. Docente de Direito nas áreas de leis islâmicas, criminais, comparativas e TJ, na Universidade de Alexandria, no Egito, e na Robert H. McKinney School of Law, da Universidade de Indiana (EUA), Arafa conduziu dois encontros, a convite do PPG de Direito, nos dias 11 e 12 de setembro, no Auditório Maurício Berni.  O objetivo da proposta foi debater sobre Islamismo, violência e discriminação e o papel do Direito nesse cenário.

Confira a entrevista com ele sobre o assunto: 

Qual a sua percepção sobre terrorismo?

O terrorismo acontece em todas as partes do mundo, a única diferença é que nem todos são chamados de terroristas. Atos extremistas, movidos, seja por religião, poder, interesses econômicos, não estão apenas relacionado a muçulmanos ou à religião islâmica. O que leva as pessoas a fazerem isso é o ódio. Quando se fala em terrorismo, deve-se olhar mais para a causa do problema, e não apenas para os sintomas.

Ao tratar-se desse assunto, me parece que se avaliam dois padrões diferentes. Extremistas que são do Oriente Médio e extremistas que não são. Entretanto, o primeiro aspecto que se deve levar em conta quando se fala de terrorismo é que as primeiras vítimas são os próprios muçulmanos. Muitos muçulmanos estão sendo mortos e ninguém tem falado nada sobre isso. 

[Mohamed Arafa falando Crédito: Rodrigo W. Blum

O que leva extremistas do Oriente Médio a praticarem terrorismo? Seria para tornar o mundo muçulmano?

É perceptível a confusão e o desconhecimento generalizados sobre a religião islâmica. Grupos terroristas como Daesh, ISIS, Al-Quaeda utilizam a religião, porém com as próprias interpretações, para manipular e atingir os próprios interesses. Isso não impõe nenhum conhecimento sobre o que é dito na religião. Os terroristas não defendem o Islamismo. Inclusive, “Islam” significa "paz", em árabe.

As transgressões do radicalismo islã afetam não apenas suas vítimas, mas a sociedade como um todo. Como o mundo pode se articular para garantir os direitos humanos nesse cenário?

O Ocidente, principalmente Estados Unidos e alguns países europeus, devem parar de financiar regimes autoritários no Oriente Médio, para garantir mais direitos à população.  Os EUA apoiaram ditadores como Mubarak, Kadafi por 30, 40 anos. Enquanto isso continuar a acontecer, é complicado visualizar qualquer tipo de mudança positiva. 

E no cenário doméstico?

Nós temos leis contra o terrorismo no Oriente Médio, leis criminais e antiterrorismo, mas me parece que são desenhadas para vingança e para prestar retaliação para as pessoas. É impossível dizer que atingiremos a paz enquanto não tivermos um governo democrático, judiciário independente, que trabalhe por justiça e não pelo regime, liberdade de expressão e imprensa. 

O Presidente Trump cortou verba de apoio econômico e militar do Egito baseado no perfil de violação de direitos humanos do país. Você mora nos Estados Unidos há 11 anos. Como percebe essa situação?

Eu já disse aos meus amigos americanos: 'parem de dizer que o país de vocês apoia os direitos humanos'. Os EUA enfrentam, todos os anos, ataques extremistas por parte do governo: crise de racismo na polícia, professores presos por protestarem contra o governo... Primeiro, devem olhar para si, para depois falar dos outros. Eles fazem o mundo acreditar que eles são o modelo perfeito de país livre e democrático, mas não são.

Em decorrência da eleição de Trump, este é um momento muito complicado para a comunidade muçulmana nos Estados Unidos. Eu não sei se eu não percebia o receio a muçulmanos antes, mas não era assentido falar publicamente disso em outras administrações. Agora, eles se sentem encorajados pelo próprio presidente. 

Existe alguma esperança de mudança? 

Eu gosto de analisar como as pessoas percebem os muçulmanos e o Oriente Médio. A eleição de Trump gerou muita desaprovação em vários lugares do mundo. Os ideais de nacionalismo, preconceito a diversas minorias, autoritarismo são repudiados por países que se posicionam de maneira mais aberta. Ele não está tendo apoio da maioria.  É irônico pensar que ele se elegeu com o mote de “tornar a América grande novamente”, quando os Estados Unidos é um país colonizado.

Acredito que ao eleger presidentes jovens e com mente aberta, a população se mostra, consequentemente, predisposta a mudar. Por exemplo, Macron [presidente da França], quando foi eleito, alegou ser totalmente receptivo a muçulmanos refugiados e demonstrou apoio a toda comunidade muçulmana. Isso é ótimo. A população do Oriente Médio se inspira, e essa esperança gera medo nos ditadores.

E como você avalia a Islamofobia no Brasil?

Eu nunca me senti discriminado aqui. É a terceira vez que venho ao Brasil. Acredito que o país é aberto à comunidade muçulmana há tempo, porque há bastante imigração libanesa e síria, e vocês sempre se mostraram receptivos e acolhedores.

E como continuar melhorando?

Acredito que tem muitas maneiras do Brasil auxiliar no combate à Islamofobia. Ano que vem, ficarei um ano aqui, entre Brasília e Curitiba, e tenho dois objetivos: o primeiro deles é abrir mais a discussão sobre o islamismo, o Oriente Médio. Trazer ideias que contribuam com a pluralidade do discurso dos acadêmicos. Além disso, pretendo promover intercâmbios de estudos para o Cairo, em que os alunos terão oportunidade de conhecer de perto a região, as leis, a cultura, e de refletir sobre como o Brasil pode auxiliar.