Namoro celestial

Professor de física e astronomia explica a aproximação entre planetas que ocorre no mês de junho

LUIZ AUGUSTO L. DA SILVA
18 de Junho de 2015 - 11:31 | Atualizado: 18 de Junho de 2015 - 16:42

No mês dos namorados, um longo e sinuoso "cortejo amoroso" poderá ser acompanhado no céu durante as próximas semanas, protagonizado pelos dois planetas mais brilhantes do firmamento, ou seja, Vênus e Júpiter.

Na mitologia, Vênus (para os romanos) ou Afrodite (para os gregos), era a deusa do amor, enquanto Júpiter (para os romanos) ou Zeus (para os gregos), era o rei dos deuses, famoso por seus múltiplos relacionamentos.

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A sequência de eventos poderá ser acompanhada sempre após o por do Sol, durante o cair da noite, olhando-se para a direção noroeste, e oferecerá, a cada dia, uma configuração diferente dos dois planetas, permitindo perceber seus lentos deslocamentos na esfera celeste, um relativamente ao outro.

Os mais atentos já podem ter percebido que a separação angular entre Vênus e Júpiter no céu já vem encolhendo paulatinamente nos últimos meses. Mas ela começa a reduzir de forma mais espetacular a partir do dia 20 de junho, quando a Lua crescente, 19% iluminada pelo Sol, se junta aos dois astros, formando com eles um triângulo retângulo. O lado maior deste triângulo (chamado hipotenusa, pelos matemáticos) medirá 7,4 graus, enquanto os lados menores, 6,0 graus (Vênus-Júpiter) e 4,1 graus (Júpiter-Lua). Como se trata dos três astros mais brilhantes do céu depois do Sol, o fenômeno chamará a atenção e poderá ser registrado com facilidade através das câmeras digitais de aparelhos celulares comumente disponíveis hoje, além de constituir uma bela visão, contra o fundo colorido do crepúsculo vespertino.

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No dia seguinte, 21, data do solstício de inverno para o hemisfério sul, a Lua já estará brilhando mais acima dos dois planetas, formando uma linha reta com eles. Grosso modo, esta reta desenha uma parte da linha da eclíptica, que é a projeção no céu da órbita terrestre em torno do Sol.

Nas noites seguintes, a Lua se afasta e sobe cada vez mais, em relação ao horizonte, mas Vênus e Júpiter continuarão se aproximando um do outro. Consulte a tabela em anexo para saber a separação angular entre eles a cada dia. Por exemplo, dia 25, ela  é 2,9 graus; dia 28, 1,2 graus; e dia 29, 0,7 grau. A mínima separação visível acontece na noite do dia 30 de junho, apenas 0,4 grau (mais precisamente, 21 minutos e 54 segundos de arco), configurando uma sensacional aproximação entre os dois planetas! 

Cumpre salientar que esta proximidade é apenas aparente porque, na realidade, Vênus e Júpiter se encontram a uma distância muito grande entre si. Em relação à Terra, a distância de Vênus na ocasião será de 77 milhões de quilômetros, enquanto Júpiter estará afastado de 909 milhões de quilômetros!

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Às 18 horas do dia 30, cerca de meia hora depois do por do Sol, o par Vênus-Júpiter brilhará intensamente, a 31 graus de altura sobre a linha do horizonte, e a 43 graus de elongação do Sol, permanecendo visível até às 20h53min, quando acontece o ocaso dos dois planetas juntos. A magnitude de Vênus será -4,4 e a de Júpiter, -1,8. A cor do primeiro é  branco brilhante, enquanto a do segundo, amarelo intenso.

Quem olhar através de um telescópio poderá enxergar a fase minguante de Vênus, constatando que o planeta está apenas 34% iluminado pelo Sol. Também estarão visíveis as quatro maiores luas de Júpiter (Io, Europa, e Calisto, de um lado do disco do planeta, e Ganimedes, do outro).

Com a chegada do mês de julho, a distância angular entre Júpiter e Vênus principia a aumentar. Júpiter vai caindo na direção do clarão crepuscular, enquanto Vênus mantém uma altura mais ou menos constante, desviando-se em direção à esquerda no céu, tomando-se por base objetos de referência na linha do horizonte. A partir de meados do mês, os dois começam a cair lentamente em direção ao Sol, mantendo entre si uma distância angular mais ou menos constante, de cerca de 6 graus.

Uma segunda aproximação da Lua acontece no início da noite de 18 de julho,  formando de novo um triângulo com os dois planetas. O lado Vênus-Lua medirá 2,7 graus, o lado Lua-Júpiter, 4,2 graus, e o lado Júpiter-Vênus, 5,9 graus. Nas proximidades, estará ainda a estrela Regulus, branco-azulada, de magnitude 1,4, a mais brilhante da constelação de Leão (Leo), distanciada de 79 anos-luz. Incluindo-se esta estrela, teremos então delineada a figura de um quadrilátero, com o lado Vênus-Lua medindo 2,7 graus, o lado Júpiter-Lua, 4,2 graus, o lado Júpiter-Regulus, 5,0 graus, e o lado Regulus-Vênus, 2,8 graus.

Começando em 5 de agosto, Vênus ficará de novo mais baixo no céu do que Júpiter, enquanto a visibilidade de ambos vai piorando a cada dia que passa.

Este texto foi preparado por Luiz Augusto L. da Silva, professor de física e astronomia da Unisinos. Simulações de Diomar Reus Sbardelotto, engenheiro e laboratorista da Unisinos, com auxílio do software Stellarium.