Nexto Safety: a primeira solução de segurança funcional para a indústria feita no Brasil

Linha de CLPs poderá ser aplicada em sistemas críticos, como a extração de óleo e gás

PÂMELA OLIVEIRA

Uma parceria entre a Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos, a Altus Sistemas de Automação, a Finep e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS está colocando o Brasil no mapa dos países que pesquisam e desenvolvem soluções de segurança funcional para a indústria. Juntas, as instituições criaram o Nexto Safety, uma família de CLPs (Controladores Lógicos Programáveis) projetada para assegurar ambientes de trabalho mais seguros, que garantam a integridade física de pessoas, equipamentos e sistemas.

O Nexto Safety foi pensado para atender às especificações de normas nacionais e internacionais de análise e tratamento de falhas, como IEC 61508 e ISO 13849-1. Além disso, é a única solução de segurança funcional no Hemisfério Sul certificada pelo instituto alemão TÜV Rheinland.

[Fios ligados a equipamento na Altus Crédito: Rodrigo W. Blum

O professor da Unisinos Rodrigo Marques de Figueiredo acompanha esta parceria de perto e conta, na entrevista a seguir, um pouco mais sobre o Nexto Safety, suas aplicações na indústria e a importância dessa solução para o Brasil. Confira:

O que é o Nexto Safety?

O Nexto Safety é uma família de CLPs (Controladores Lógicos Programáveis) da Altus com capacidade e certificado para aplicações de segurança funcional (functional safety).

Qual é a participação da Unisinos nessa iniciativa?

No desenvolvimento desta família de CLPs, a Unisinos participou como principal desenvolvedora da CPU SIL-3 junto à Altus e como parceira de desenvolvimento dos módulos de entrada e saída (módulos de I/O) SIL-3 em conjunto com a Altus e a UFRGS.

A Unisinos foi a proponente de um projeto FINEP e fez o P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) das arquiteturas de hardware e software que foram produzidas pela Altus e depois testadas e validadas pelas equipes de ambas as instituições, isso no caso da CPU SIL-3. Já no caso dos módulos de entrada e saída, a Unisinos participou nos testes, nas validações e proposições de soluções para problemas pontuais.

Este projeto vem sendo desenvolvido desde quando? Ele está concluído ou em andamento?

O projeto iniciou ao final de 2012 e terá seu fechamento oficial no mês de maio deste ano com o produto certificado. O processo de certificação já foi feito e, até metade de maio, serão entregues as últimas documentações necessárias para a emissão do certificado.

Quais são as aplicações práticas do Nexto Safety? Como ele pode ser aproveitado pelo mercado e quais segmentos da indústria têm demanda por esta tecnologia?

As principais aplicações do Nexto Safety são sistemas críticos, como plantas de extração de óleo e gás, plantas de processamento de óleo e gás e indústria química. Em suma, quaisquer sistemas que envolvam a necessidade de alto grau de confiabilidade perante o risco, seja a pessoas, ao ambiente, ou mesmo ao próprio sistema.

Outro ponto importante é o seu uso na indústria de maquinário, pois, nessa indústria, cada vez mais há a necessidade de segurança funcional para garantir a integridade dos operadores, do processo e das máquinas. O Brasil é um grande mercado para todas essas indústrias e, atualmente, é alimentado por produtos importados. O Nexto Safety, portanto, é o primeiro produto nacional com capacidade para atender a essas demandas de mercado.

Como esta iniciativa beneficiará a comunidade acadêmica da Unisinos?

A comunidade acadêmica da Unisinos já está se beneficiando desta iniciativa. Desde o início do projeto, foram sete TCCs (Trabalho de Conclusão de Curso) e uma dissertação apresentados sobre o tema, sendo que ainda há alguns trabalhos em desenvolvimento. Desses trabalhos desenvolvidos, alguns conseguiram destaque em renomadas revistas da área, colocando a Unisinos no mapa da pesquisa em segurança funcional atual. A segurança funcional é pesquisada com essa profundidade nos Estados Unidos e em poucos países da Europa.

O Nexto Safety confere uma insígnia de pioneira à Unisinos. Fale mais sobre isso.

O principal pioneirismo é que a equipe da Unisinos é a primeira a desenvolver um projeto de tal complexidade (o mais alto para o tipo de produto), com o mais alto grau de segurança funcional atendido no Hemisfério Sul, e a Altus, por sua vez, é a primeira empresa brasileira (e do Hemisfério Sul) a ter tal produto com tecnologia 100% nacional. Esse projeto coloca o Brasil como o sexto país a ter um desenvolvimento de tal complexidade e com classificação de segurança em nível mundial, tudo isso com o endosso da TÜV Rheinland, principal empresa de certificação de sistemas e produtos em segurança funcional.

O Nexto Safety notabiliza a parceria que a Universidade mantém com as empresas. Comente a respeito dessa relação.

A iniciativa do Nexto Safety traduz o ideal da parceria universidade/empresa. As empresas conhecem o mercado e suas demandas, e a universidade, por sua vez, tem alta capacidade de pesquisa aplicada para atender às necessidades das empresas para atingir o mercado. No caso do projeto do Nexto Safety, foi exatamente esse o caminho percorrido. Obviamente, esse é um caminho tortuoso e que, para ser trilhado, exige tenacidade e resiliência de ambas as partes, tanto da universidade quanto da empresa. Porém, quando tudo é superado, o resultado é extremamente gratificante e temos um produto inovador para o país. A empresa é beneficiada pelo ganho de mercado, e a universidade, pelo ganho de uma nova cultura.

Há algo mais que considere importante citar?

A iniciativa deste projeto serve de exemplo para que outras iguais sejam feitas, pois advém de um incentivo da FINEP que veio ao encontro de uma necessidade de mercado. Essa necessidade de mercado foi mapeada pela empresa (Altus) que, em conjunto com a universidade (Unisinos), propôs uma solução. Isto se chama pesquisa aplicada, e somente isso fará com que o país fuja do destino de ser um mero fornecedor de commodities para ser um país de capacidade de inovação tecnológica de fato.