Por outra alimentação

Estudantes estão concorrendo a 10 mil dólares com projeto para combater à fome no mundo

KARLA OLIVEIRA
05 de Dezembro de 2014 - 11:23 | Atualizado: 05 de Dezembro de 2014 - 13:53

Grande parte das espécies de plantas que consumimos hoje em dia nos chegaram através do deslocamento das populações humanas pelo planeta em busca de terras e comércio. Cebola, cenoura e alho vieram da Ásia Central. Beterraba, repolho e aipo, do Centro-Mediterrâneo. O pêssego, a laranja e a maça, da China.

[Grupo encontra alternativa de alimentos

Mas existem Plantas Alimentícias Não-Convencionais (Panc’s), que nascem espontaneamente em terrenos baldios, calçadas e beira de estradas. Chamadas popularmente de inços, mato ou daninhas, são espécies nativas que podem substituir com vantagem nutricional produtos que teriam que ser comprados no supermercado ou fora safra.  

As estudantes da Unisinos, Adriana Martelli (Comércio Exterior), Andreza Livramento (Biologia), Bruna Pedroso e Monique Hans (Nutrição) e Elisiane Wolf aluna da UFRGS (Agronomia), enxergaram a potencialidade dessas plantas para acabar com um problema mundial: a fome. De acordo com o relatório da Agência para Agricultura e Alimentação das Nações Unidas (FAO), relativo ao período de 2012 e 2014, pelo menos outras 805 milhões de pessoas no mundo. 

Através do desafio global Thought For Food que busca soluções inovadoras para esse problema, as estudantes criaram o projeto Other Food. A ideia da equipe é combater a fome por meio da criação de hortas com os alimentos não tradicionais, estimulando a produção própria e resgatando esse hábito alimentar. “Muitas dessas plantas eram utilizadas pelos nossos avós, pelos imigrantes e isso foi se perdendo”, destaca Bruna Pedroso.  O projeto participará da seleção com outras 335 equipes, com times inscritos de 51 países pelos 10 mil dólares. O prêmio ajudará a alimentar 9 bilhões de pessoas até 2050.

[Other Food é divido em quatro fases

Other Food

O Other Food é dividido em quatro fases, o primeiro é fase de formação. Ele foca na criação de em multiplicadores que levem o conhecimento sobre as Panc’s. Através de rodas de conversa e oficinas, instruindo profissionais da saúde e da educação. A segunda é inserir o conhecimento dos multiplicadores nos espaços em que eles estão inseridos. Já a terceira e quarta andam juntas. A ideia é que nessas fases ocorra a implementação e a sustentação das hortas de alimentos não convencionais.

“Queremos mostrar que outra alimentação é possível. Lembrando que não é só quem não tem o que comer que passa fome. Trabalhamos com a visão de que quem não tem a oportunidade de ter uma alimentação diversificada e orgânica também sobre de uma desordem alimentar”, salienta Bruna. O projeto quer estimular a criação de hortas sem o uso de agrotóxicos em casas e apartamentos, por meio de jardins verticais, que aproveitam os pequenos espaços. 

A equipe já tem desenvolvido ações com o Other Food. Um exemplo é o de Andreza Livramento, que participa da equipe e fazendo o Trabalho de Conclusão de Curso viu uma oportunidade de expandir o projeto. Ela desenvolveu com os alunos do 7° ano da Escola Santa Teresa em Porto Alegre, seminários e feiras de degustação organizadas pelos próprios estudantes. “Os próprios alunos se tornaram multiplicadores do conhecimento. Com a degustação das Panc’s, eles puderam mostrar para os colegas de outras turmas uma nova forma de alimentação”, conta Andreza. Além disso, na escola foi criada uma horta, onde algumas espécies de plantas convencionais e não convencionais foram plantadas e serão inseridas no cardápio escolar. O mesmo aconteceu com Monique Hans que apresentou as Panc's para alunos do ensino fundamental da rede pública de ensino do Município de Harmonia.


As Panc’s

Erva gorda (Talinum paniculatum), caruru, bertalha, serralha, dente de leão e capuchinha, são alguns dos exemplos de plantas que poderiam ser utilizadas na alimentação. As Panc’s e a diversidade, seja ornamental, medicinal, madeireira são, muitas vezes, negligenciadas. Atualmente, muitas plantas que são consideradas saladas, também eram plantas que cresciam como os atuais inços. 

Calcula-se que se perde, por ano, entre 1 a 2 toneladas, podendo alcançar 7 toneladas por hectare, de plantas alimentícias não convencionais. A maioria são hortaliças com elevadas propriedades nutricionais para a espécie, sendo jogadas fora ou secando com os herbicidas tóxicos. Ainda estima-se que existam cerca de 50 mil plantas alimentícias no mundo, sendo pelo menos 10 mil no Brasil. Mas a falta de divulgação da existência delas, reduz a oferta de alternativas de alimento à população.