O desafio da geração Z

Como as universidades estão se preparando para engajar jovens com acesso a muita informação, altas expectativas e o desejo de mudar o mundo?

RODRIGO W. BLUM

Que a geração Z já não se conforma mais com a realidade em que vive, não é mais novidade. Conectados ao mundo por meio de uma cultura digital, os jovens que estão ingressando nas universidades, hoje, são muito mais conscientes dos problemas sociais em nível Global. “Essa geração, hoje, forma comunidades globais e, muito mais do que as informações veiculadas pela mídia tradicional, ela tem conhecimento sobre os problemas de diversos lugares do mundo”, afirma Mary Besterfield-Sacre, diretora do Centro de Pesquisa em Educação em Engenharia da Universidade de Pittsburgh nos Estados Unidos, que está na Unisinos para a primeira Missão do Programa Brasil - Estados Unidos de Modernização da Educação Superior na Graduação (PMG – EUA).

[Mary falando na Formação Docente Crédito: Dani Villar

De acordo com a pesquisadora, os nascidos nos anos 2000 querem ajudar a resolver os problemas da sociedade e buscam na educação uma resposta para esses problemas, além das habilidades necessárias para desenvolver suas carreiras. Mas, ao tratar de uma geração ultra conectada, com um mar de informações na palma de suas mãos, as universidades enfrentam um desafio que vai muito além de educar, e precisam corresponder às altas expectativas de pessoas com uma consciência coletiva afiada mas, que pode se perder com facilidade devido à sobrecarga de informações que as bombardeia diariamente.

Uma nova forma de educar

Se a geração Z acumula informações e expectativas, é papel das instituições de ensino ajudá-la a construir sua trajetória sem acumular, também, frustrações. Uma tarefa que, ao mirar um público com a cultura da colaboração, conexão e consciência global bem desenvolvida, deve seguir seu ritmo para poder suprir suas necessidades.

Lançado em 2018, o Programa Brasil - Estados Unidos de Modernização da Educação Superior na Graduação (PMG – EUA) é realização da CAPES em cooperação com a Comissão Fulbright e conta com investimentos de R$ 6 milhões de ambas instituições. O programa tem início com o financiamento de Projetos Institucionais de Modernização (PIMs) para cursos de graduação nas áreas das Engenharias.

Inscrita já no primeiro edital, a Unisinos foi selecionada em primeiro lugar com o projeto de Graduação Pro que possibilita uma personalização do curso de graduação, dando a possibilidade do aluno adaptar o curso a suas necessidades. “A ideia do projeto é justamente trocar conhecimento com universidades americanas por meio de missões de estudo de professores, trazendo especialistas deles para cá”, explica a professora Tatiana Rocha, que faz parte do grupo de trabalho que recebeu a pesquisadora americana na universidade.

[Mary falando na Formação Docente Crédito: Dani Villar

Mary destaca que um dos métodos que tem bons resultados nas engenharias é o de aprendizagem ativa, onde o professor, muito mais do que transmitir informações, atua como um facilitador do processo de ensino, e os alunos são apresentados a problemas e trabalham para solucioná-los. “Isso gera uma motivação muito maior nos alunos, o que resulta em uma absorção maior do conhecimento, uma vez que ele é aplicado diretamente na resolução de problemas que, muitas vezes, são apresentados pelos próprios alunos.”A pesquisadora explica que essa metodologia está sendo estudada na área da Engenharia, porém pode ser aplicada em qualquer área de conhecimento para aprimorar o aprendizado.

“Menos aulas expositivas e mais tempo de laboratório talvez seja o primeiro passo para aplicar o aprendizado ativo. Mas não se trata apenas de colocar os alunos em um laboratório, o professor tem que fazer com que o exercício seja relevante.”

Mary Besterfield-Sacre, diretora do Centro de Pesquisa em Educação em Engenharia da Universidade de Pittsburgh nos Estados Unidos

Para a pesquisadora, é preciso dar motivações para os alunos estudarem. "Por exemplo, fazer com que eles possam desenvolver suas competências com o tempo. Se eu só palestrar sobre o assunto e o aluno for fazer seu dever de casa sobre o tema e não conseguir resolver os problemas, ele não vai desenvolver essa competência. Mas se ele tiver acesso aquele conteúdo em um canal do YouTube, por exemplo, e chegar na sala de aula e ver que seus colegas também tiveram a mesma dificuldade, eles poderão trabalhar juntos na resolução desse problema e, ao compartilhar seus conhecimentos, poderão aprender uns com os outros”, diz a pesquisadora.

Outra maneira de motivar os alunos, segundo Mary, é dar a eles o controle sobre o problema. “Durante o semestre você ensina sobre um assunto. Mas chegando ao final do semestre, você dá ao aluno a oportunidade para escolher um projeto para trabalhar em relação aquele conhecimento. Isso dá a ele autonomia para trabalhar em algum ponto que ele mais gostou durante a aula, ou um tópico que ele tem mais interesse em estudar. E isso cria mais motivação para estudar”, discorre.

Missão na Unisinos

A fase inicial do PMG-EUA é o Projeto Institucional de Modernização – PIM, que tem como foco as engenharias, mas Mary começou sua missão falando sobre sua pesquisa para os professores de todos os cursos de graduação da Unisinos durante a Formação Docente. Além disso, a pesquisadora ainda visitou as instalações dos institutos tecnológicos da universidade e conheceu mais profundamente o projeto de ensino da instituição. “Estou realmente muito impressionada com a Unisinos, porque ela está fazendo tudo absolutamente certo para aprimorar a educação. E trabalhar com um grupo tão motivado tem sido muito recompensador”, finaliza Mary.

[Mary falando na Formação Docente Crédito: Divulgação