Como é viver da arte?

Entrevistas em profundidade e uma grande reportagem sobre os impactos da Lei Aldir Blanc marcam as produções da Beta Cultura, site produzido por alunos do curso de Jornalismo da Unisinos

KAROLINA KRAEMER - PORTAL MESCLA

Com mais um semestre chegando ao fim, os alunos da atividade acadêmica de Beta Redação - Cultura e Entretenimento, ou apenas Beta Cultura, como é conhecida entre os professores e estudantes, concluem mais um ciclo de publicações para o Laboratório Experimental de Jornalismo da Unisinos.

Dando continuidade às adaptações que as cadeiras de Beta Redação vêm desenvolvendo desde o início da pandemia, os lançamentos da Editoria de Cultura caminham de entrevistas com personalidades do meio artístico até grandes reportagens conjuntas, cobrindo por diferentes ângulos a participação da Lei Aldir Blanc em um setor cultural em crise.

Entrevistas ping-pong

Vinda de uma maratona de resenhas críticas culturais que guiaram a primeira parte do semestre, a Beta Cultura segue tentando desenvolver novas maneiras de exercitar as várias formas de jornalismo cultural em suas produções. Desse modo, as entrevistas de perfil (ping-pong) entram como uma dinâmica relevante dentro dos contextos de experimentação e isolamento.

“A entrevista veio cobrir uma lacuna que a gente teve durante a pandemia e que é uma coisa que valorizamos muito, na Beta Cultura especificamente, a possibilidade de conhecer as coisas, conhecer o mundo, através do jornalismo”, estabelece Felipe Boff, um dos professores que ministram a atividade. Com uma linha editorial não limitada, os alunos da cadeira tiveram a oportunidade para fazer um recorte livre na decisão das fontes, o que possibilitou um registro autêntico do nosso imenso cenário cultural.

As pessoas mais e mais se apoiam na arte para escapar da realidade que as cerca e as publicações produzem uma reflexão importante: o quanto a arte é relevante e importante na vida de todos nós, não só dos que vivem dela?

19 conversas e uma diversidade de mundos

Versando sobre como os artistas estão produzindo e planejando em cenário de quarentena, as entrevistas perfil apresentadas transitam entre os mais diversos subtemas, podendo ir da poética do empoderamento feminino através do Graffiti, até uma carreira de 33 anos de música nativista. São entrevistas que constroem um amplo panorama de narrativas para conhecer as várias vertentes artísticas que existem.

Entrevistas que nos permitem “ouvir” Dedé Ribeiro falar sobre como a neurociência a influenciou em ‘contar’ através da colagem, ou como o slam tomou espaço na vida de Mariana Bavaresco (Ella), acabam oportunizando uma conversa entre o artista e o leitor, uma vez que refletem o interesse do jornalista sobre o tema.

“A Beta Cultura é mais leve em relação a outras Betas, que acabam se baseando mais em dados, por ser algo mais humanizado. Para mim, entre todas as cadeiras que preenchiam a semana, [a Beta] Cultura era um alívio, porque me dava a liberdade para abordar sobre as temáticas que eu gostava”, é o que diz a aluna Tainara Pietrobelli. A estudante entrevistou a fotojornalista gaúcha Mirian Fichtner, sobre seu documentário Cavalo de Santo, que estreará esse ano.

Para Tainara, a experiência trouxe novos aprendizados: “Um conselho importante, nesse sentido, é o de só falar com pessoas que tu realmente tem interesse. Eu tinha interesse por ela e pela temática, então eu fui eu”, argumenta, relembrando que a interação com a entrevistada foi um momento muito marcante para seu desenvolvimento na qualidade de estudante.

Além das boas histórias, é possível encontrar nas publicações indicações para expandir os repertórios referenciais. Seja na música, quando Rafael Decarli fala de suas inspirações em Véronique Vincent & Aksak Maboul ou no cinema, quando o documentário ‘Paris is Burning’ (1990) é apresentado na fala de Rayan Pires para mostrar o que é a Cultura Ballroom e como estilo de dança Vogue é mais do que um mimetismo das capas de revista.

Arte é resistência, é sobrevivência pois criar no contexto em que estamos vivendo é também lutar pela vida simbólica, a vida representada. Este desabafo/clamor se manteve constante nos diálogos com as fontes entrevistadas. Isso acabou por incentivar as turmas a abordarem o impacto da Lei Aldir Blanc de uma maneira mais direta, originando a ideia de uma grande reportagem.

A Lei Aldir Blanc e sua influência no palco cultural

Os estudantes, que já vinham divididos desde o início do semestre em cinco grupos, com um editor cada, usaram dessa formação para abordar a matéria de uma forma mais dilatada. Assim, conversando sobre o impacto da Lei Aldir Blanc e a influência que ela teve nos palcos de Audiovisual, Culturas Vivas (Populares), Literatura e Música, a cobertura se resolveu em uma série de reportagens conjuntas. “Nós sempre queremos que as turmas experimentem o máximo de situações que o jornalismo vai oferecer na atividade normal profissional e uma dessas situações é a produção coletiva”, justifica Boff.

Crédito: Divulgação

É comum que os alunos idealizem as funções da edição como sendo as mais fáceis, quando comparadas com as do repórter, mas, nessa atividade de prática jornalística, exercer o papel de editor mostra outro lado da profissão. Após a definição dos temas de cada grupo, a conversa de organização ficou a cargo dos editores, ao que a Beta encoraja que os alunos tomem o protagonismo das produções, logo, foram eles os responsáveis pelos cortes e pela reescrita dos materiais dos colegas, precisando respeitar o jeito de cada um de escrever e o apego emocional que teriam ao que haviam escrito.

Pensando em uma matéria que “emendaria” o trabalho de diferentes repórteres em um único texto, um dos desafios seria manter a coesão do produto publicado. “O exercício da reportagem conjunta é fazer com que os textos dos repórteres conversem no final, porque se isso não acontecer, a matéria fica parecendo um Frankenstein. Não é simplesmente juntar tudo e entregar, e aí entra o trabalho de edição”, é o que explica William Martins, editor de texto do grupo responsável por abordar Culturas Vivas.

Kellen Dalbosco, editora do grupo atribuído à legislação da Lei, comenta que o corte que seu grupo trouxe, de introdução e fechamento da série de reportagens, foi dado “de trás para a frente”, uma vez que o contato com as fontes apontou um outro lado da LAB. “Quando se estuda e conversa com pesquisadores, se começa a interpretar e entender que muitos municípios não possuem uma Secretaria de Cultura por não existir nem mesmo um Ministério da Cultura!”, constata a aluna, argumentando que ela [a Lei] veio, contudo, para demonstrar também o descaso do Estado com a cultura.

“Quando falamos sobre cultura, no atual cenário brasileiro, ela acaba sendo algo político. Nós precisamos falar sobre essas políticas públicas, pois elas serviram para mostrar a crise no setor cultural”, é o que diz a editora. Nesse semestre, Kellen já havia escrito sobre a gestão dos recursos da Lei Aldir Blanc no município de Garibaldi, para a Beta Economia e, com seu irmão sendo um dos artistas que obteve o suporte da Aldir Blanc, conseguiu observar de perto os desafios da Lei.

A verba de R$ 3 bilhões disponibilizada para a manutenção do setor cultural possibilitou que muitas histórias fossem contadas, entretanto, por vezes o auxílio recebido não é o suficiente. É o que, por um lado, retrata a reportagem de Audiovisual. Trazendo os cases dos projetos Intransitivo (documentário), Em Nome do Pai (curta), Papo de Criança (série online) e Danças Tradicionais do Rio Grande do Sul (filme), o grupo apontou como a Lei foi fundamental para que esses trabalhos saíssem do papel, mas que, ao mesmo tempo, os recursos de R$ 30 mil a R$ 50 mil não suprem as necessidades de uma equipe de produção (cenário, equipamento, artista).

A equipe de Literatura aponta que, mesmo o Brasil não sendo um país de leitores, ainda existem iniciativas que buscam, além de estimular essa prática desde cedo, usá-la para conscientizar a sociedade e puderam dispor da Aldir Blanc para esse objetivo. É isso que se enxerga nas narrativas sobre o I Festival Germinação Cultural, o Circuito Cultural nas Bibliotecas da Rede Beabah! e a Coleção PríncipXs, que incentivam a diversidade através das palavras. Algo que se manteve presente nas histórias pautadas pelo olhar da música, ao contar sobre o projeto Batuco Educo e o grupo Além dos Muros. A musicista Lela Rosanelli, também entrou nos cases, como mais um artista que conseguiu utilizar da Aldir Blanc para desenvolver novas propostas musicais durante a pandemia de Covid-19.

Culturas Populares apresentou para publicação quatro cases de projetos sociais que, com o recurso da Lei Aldir Blanc, conseguiram sair do papel e retomaram suas atividades. O Projeto Capoeira Social, de Sapucaia do Sul, o DesapagaPOA, a Rede de Pontos de Cultura e o Grupo de Dança Nossas Raízes, de Portão, são os atores dessa narrativa. “Nós tivemos a chance de retratar coisas importantes do lugar onde a gente mora e isso é bem importante. No decorrer das Betas a gente tem que tentar fazer alguma coisa que ajude o lugar onde moramos e as pessoas que estão aqui”, conclui Tainara, que compõe a equipe.

Tal abordagem acaba por visibilizar iniciativas culturais que, muitas vezes, não são amplamente conhecidas, por não possuírem tantos espaços de divulgação nas mídias tradicionais e, com a Beta sendo um site de notícias experimental, essa é uma necessidade que pode ser elaborada sem a pressão dos veículos da imprensa comercial. Para Willian, a questão social que a cultura carrega deve ser visibilizada. “É nosso dever, como jornalistas e comunicadores, dar a possibilidade para que o excluído e o diferente fale - dar voz àqueles que são marginalizados e silenciados pela sociedade”, fundamenta.

Divulgação nas redes

Após as publicações das matérias as atividades dos alunos continuaram, com a intenção de trazer visibilidade para as produções, e essa movimentação aconteceu por meio das redes sociais.

Crédito: Divulgação

Em um exercício para liberar toda a criatividade, Luiza Soares, editora de redes da turma de Porto Alegre, comenta sobre atuar com essa mediação entre as reportagens e o público leitor . “Foi bem legal ter esses feedbacks e ter a experiência de uma pessoa que trabalha com isso e é social media, tendo de pensar coisas novas e diferentes e então montar e ter o retorno dessa divulgação”, relembra.

As postagens no perfil da Beta Redação no instagram foram bem repercutidas, refletindo o trabalho em equipe para que a Beta ganhasse mais visibilidade e a potência das páginas da Beta nas redes.

“Participar do processo criativo de formar a identidade visual para as postagens e ver o material que os repórteres pensavam para as redes também foi uma troca”, comenta Luiza que ajudou no desenvolvimento da estética dos posts e no apoio aos colegas para aumentar o engajamento nas mídias sociais.

As Betas entram no final do currículo da graduação em jornalismo e, para muitos, essas publicações não serão apenas as últimas do semestre, mas também o encerramento de toda a jornada da Universidade. Alunos como Kellen e Willian, que integram esse grupo, podem enxergar nessas entregas, todas de maneiras diferentes, como resultados que marcam suas histórias como jornalistas em formação, aprendendo como usar a profissão para agendar temas e questões que são de interesse público.

As séries de entrevistas e reportagens podem ser conferidas na Editoria de Cultura da Beta no Medium, aproveite, também, para conhecer as outras editorias do Laboratório de Beta Redação.