Estudantes e professores da área da saúde estão levando ações diretamente às rodovias do Rio Grande do Sul, com foco no atendimento a caminhoneiros. A iniciativa busca identificar e prevenir problemas de saúde que podem impactar tanto a qualidade de vida desses profissionais quanto a segurança no trânsito.
O projeto é resultado de um acordo de cooperação entre a Unisinos, por meio do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, a Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul (SES-RS) e a Polícia Rodoviária Federal (PRF). A coordenação é da professora Juliana Scherer, e reúne estudantes de graduação dos cursos de Medicina, Psicologia, Nutrição, Fisioterapia, Farmácia, Biomedicina e Enfermagem, além de alunos de pós-graduação dos programas de Saúde Coletiva e de Nutrição, Alimentos e Saúde.
“O objetivo é atuar na prevenção e no diagnóstico precoce de doenças comuns entre caminhoneiros, que muitas vezes enfrentam dificuldades de acesso aos serviços de saúde e estão expostos a fatores de risco importantes, como longas jornadas de trabalho, alimentação inadequada e altos níveis de estresse”, explica Juliana.
Durante as ações, realizadas em pontos estratégicos das rodovias, os caminhoneiros são convidados a participar voluntariamente dos atendimentos. São realizados testes rápidos, como aferição de pressão arterial, medição de glicemia e avaliações relacionadas à fadiga, além da oferta de orientações sobre cuidados com a saúde e prevenção de doenças.
Segundo a coordenadora, a receptividade tem sido positiva. Muitos motoristas aproveitam a oportunidade para realizar exames que, na rotina, acabam sendo deixados de lado. “Além de identificar possíveis alterações, buscamos orientar e, quando necessário, encaminhar esses profissionais para serviços de saúde, garantindo continuidade no cuidado”, destaca.
A escolha dos caminhoneiros como público-alvo está relacionada à vulnerabilidade desse grupo. As condições de trabalho podem contribuir para o desenvolvimento de doenças crônicas, como hipertensão e diabetes, além de problemas relacionados ao sono, que impactam diretamente a atenção no trânsito. Nesse sentido, a ação também dialoga com o Maio Amarelo, ao reforçar a relação entre saúde e segurança viária.
A experiência também tem impacto direto na formação dos estudantes envolvidos. Para Bruna Serafini, aluna do PPG em Saúde Coletiva, o contato com a realidade fora da sala de aula foi determinante. “A experiência de sair da sala de aula e ir para o campo foi fundamental, porque permitiu ter contato direto com a realidade dos caminhoneiros. Durante as abordagens, foi possível ouvir essas pessoas e entender melhor suas principais demandas, como o cansaço, a saudade da família, as longas jornadas de trabalho e as dificuldades de acesso aos serviços de saúde, que impactam diretamente na saúde deles”, relata.

Ela também destaca a percepção de desafios estruturais. “Ficaram evidentes algumas barreiras, como a falta de estratégias de saúde voltadas especificamente para essa população e a pouca presença de ações de promoção e prevenção nas rodovias, o que acaba aumentando a vulnerabilidade desse grupo. Essa vivência reforçou a importância de olhar para os determinantes sociais da saúde e ampliou a compreensão sobre os desafios reais de acesso”, completa.
Já para Nicoly Pietrobelli, estudante de Biomedicina, a participação representou uma experiência inédita e transformadora. “A saída de campo proporcionou uma vivência inédita para mim. Desde a primeira coleta de dados, foi possível perceber o quanto essa experiência seria significativa tanto para o meu crescimento pessoal quanto profissional”, afirma.
Ela destaca ainda o impacto do contato direto com os caminhoneiros durante os atendimentos. “O que mais me chamou atenção foi a diversidade de reações diante de uma mesma pergunta. Enquanto alguns participantes demonstravam satisfação em contribuir, outros se mostravam mais vulneráveis. Houve situações em que as mesmas perguntas despertaram emoções intensas, como o choro, enquanto para outros geraram risos e leveza. Isso evidencia o quanto somos singulares e reforça a importância de compreender as individualidades dessa população”, observa.
Além do impacto imediato, os dados coletados durante as atividades podem contribuir para pesquisas e para o desenvolvimento de políticas públicas voltadas à saúde dos caminhoneiros. A expectativa é de que o projeto tenha continuidade e possa ser ampliado.
Para Juliana Scherer, a ação reforça a importância de olhar para a saúde como um elemento fundamental da segurança no trânsito. “Cuidar de quem está diariamente nas estradas é também uma forma de proteger vidas”, conclui.