A história das Missões Jesuítico-Guaranis pode ser contada para além das ruínas, dos monumentos e da atuação dos jesuítas. É a partir dessa perspectiva que a Unisinos, em parceria com a Secretaria da Cultura do Rio Grande do Sul (Sedac), desenvolve o projeto Missões Jesuítico-Guaranis: História, Memória e Patrimônio. A iniciativa reúne pesquisa, educação patrimonial e ações culturais para promover o reconhecimento, a valorização e a preservação do patrimônio material e imaterial da região.
O projeto integra um conjunto de iniciativas voltadas à valorização do patrimônio histórico e do potencial turístico das Missões, que ganhou impulso com as comemorações dos 400 anos das reduções jesuíticas. A proposta da Universidade soma-se aos esforços do poder público e das comunidades locais para fortalecer a memória regional e contribuir para o desenvolvimento socioeconômico do território.
De acordo com a coordenadora do projeto, professora Maria Cristina Martins, um dos principais desafios é aproximar a produção acadêmica da sociedade e ampliar a compreensão sobre a participação dos povos indígenas na história missioneira. A iniciativa também busca evidenciar que o patrimônio das Missões vai além dos grandes sítios arqueológicos, abrangendo outros espaços, vestígios, caminhos e saberes imateriais.
Para isso, o projeto aposta na educação patrimonial como ferramenta de formação e de participação comunitária. Entre as ações previstas estão cursos de extensão e uma especialização de 360 horas para professores da rede pública, agentes culturais e lideranças indígenas. Também serão desenvolvidos, de forma colaborativa, um inventário do patrimônio imaterial e percursos de educação patrimonial, além de livros paradidáticos bilíngues, em português e guarani.
A proposta inclui ainda aulas públicas, exposições cartográficas e visitas mediadas a espaços de memória. “Nosso foco não é apenas ensinar sobre o patrimônio, mas construir conhecimento com a população”, explica Maria Cristina.
O protagonismo indígena é outro eixo central da iniciativa. A participação das comunidades busca superar uma perspectiva que historicamente colocou os povos originários apenas como objetos de estudo, reconhecendo-os como sujeitos ativos e coprodutores do conhecimento sobre a própria história.
Segundo a coordenadora, compreender a formação das reduções exige considerar o modo de ser e a cosmovisão guarani. “Torna-se necessário, portanto, escutar esses sujeitos e aprender com eles”, afirma. A abordagem também procura evitar a homogeneização dos povos originários, considerando suas diferentes identidades e especificidades.
A perspectiva adotada dialoga com a chamada Nova História Indígena, que enfatiza a agência dos povos originários nos processos históricos. Nesse sentido, o projeto coloca o protagonismo guarani no centro da compreensão sobre a formação dos povoados missioneiros e amplia o olhar para o patrimônio cultural dos guaranis contemporâneos.
A iniciativa tem como uma de suas bases a produção científica desenvolvida pela Unisinos. O Programa de Pós-Graduação em História (PPGH) reúne uma trajetória de pesquisas sobre as Missões, que contribuiu para ampliar os temas estudados, incorporando aspectos sociais e culturais, como relações entre jesuítas e lideranças indígenas, protagonismo feminino, práticas de reciprocidade, saúde, ritos, festas e produção de saberes.
Ao aproximar esse conhecimento das comunidades, o projeto pretende fortalecer a consciência sobre o patrimônio e estimular sua presença nos espaços educativos e no cotidiano da população. Para Maria Cristina, essa valorização pode também contribuir para o desenvolvimento regional. “Essa consciência histórica, que pretendemos ajudar a fortalecer, pode se tornar uma marca da região, impulsionando o turismo e, consequentemente, o desenvolvimento das comunidades locais”, destaca.
Assim, ao articular universidade, poder público, instituições culturais, educadores e comunidades indígenas, o projeto busca preservar a memória das Missões e, ao mesmo tempo, construir novas formas de compreender e valorizar esse patrimônio, contribuindo para a educação, a cultura e o desenvolvimento da região.