Painel do Conecta+ aborda pensadoras feministas negras na História e Ciências Sociais

EDUARDO HERRMANN

Na tarde de terça-feira (14), as pesquisadoras Bruna Letícia de Oliveira dos Santos e Lucilene Guimarães Athaíde apresentaram o painel Contribuições de pensadoras feministas negras na História e nas Ciências Sociais.

A atividade é uma das cerca de 200 que integram a programação do multievento online Conecta+.

Bruna, historiadora e mestre em História pela Unisinos, e Lucilene, jornalista e mestranda no PPG em Ciências Sociais da Unisinos, compartilharam as percepções presentes em suas pesquisas de dissertação, que partiram do pensamento de intelectuais negras como as brasileiras Lélia Gonzalez e Maria Beatriz Nascimento e as americanas Angela Davis, Kimberlé Crenshaw e Patricia Hill Collins.

Crédito: Divulgação

Ambas são acadêmicas negras, o que faz diferença. "Nosso local de fala é um ponto de partida que nos permite entender melhor as coisas. Escrevemos o que vivemos, por isso a escrita negra é diferenciada", opinou Lucilene, que tem como objeto de pesquisa trabalhadoras domésticas que moram em uma comunidade quilombola.

"Nem todas as mulheres negras estão falando da mesma coisa, mas elas falam praticamente do mesmo lugar: de invisibilidade. Suas falas se complementam, se cruzam e são importantes para construir uma nova perspectiva histórica e social", acrescentou.

Já a historiadora Bruna Letícia usou em sua dissertação a ferramenta metodológica da interseccionalidade para analisar os mecanismos de opressão que agem sobre a vida das mulheres negras. Segundo ela, é preciso perceber a ação das mulheres negras dentro das estruturas da sociedade levando em consideração os "marcadores sociais" gênero, raça e classe social.

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"Só conseguimos pensar nas mulheres negras socialmente a partir da intersecção de todos esses marcadores. Não conseguiríamos apenas considerando gênero, ou só raça, ou só classe social. Essas experiências acontecem juntas", argumentou.

Para ilustrar o argumento, Bruna apresentou uma poderosa fala da mulher escravizada americana Sojourner Truth. Após liberta, proferiu o seguinte discurso, em 1851, intervindo em uma reunião de clérigos em uma convenção sobre os direitos das mulheres:

"Aquele homem ali diz que é preciso ajudar as mulheres a subir numa carruagem, que é preciso carregá-las quando atravessam um lamaçal e que elas devem ocupar sempre os melhores lugares. Nunca ninguém me ajuda a subir numa carruagem, a passar por cima da lama ou me cede o melhor lugar! E não sou uma mulher? Olhem para mim! Olhem para meu braço! Eu capinei, eu plantei, juntei palha nos celeiros e homem nenhum conseguiu me superar! E não sou uma mulher? Eu consegui trabalhar e comer tanto quanto um homem – quando tinha o que comer – e também aguentei as chicotadas! E não sou uma mulher? Pari cinco filhos e a maioria deles foi vendida como escravos. Quando manifestei minha dor de mãe, ninguém, a não ser Jesus, me ouviu! E não sou uma mulher?"

"Ela questionou o que era ser uma mulher. Por sua experiência social e sua história, ela percebia ser uma mulher diferente das mulheres brancas e de classe média e alta", comentou Bruna.

Descobrir as ideias e relatos de pensadoras feministas foi um marco importante na trajetória acadêmica de ambas. Hoje, Lucilene nota, com satisfação, que o pensamento de intelectuais negras tem sido mais debatido na universidade.

A programação do Conecta+ é gratuita, e segue até o dia 17 de julho. Acesse o site do evento para saber mais.