No dia 27 de maio, o curso de Enfermagem promoveu a Semana Acadêmica, que debateu a atuação dos profissionais de enfermagem diante dos desafios dos cuidados paliativos, abordagem assistencial voltada à melhoria da qualidade de vida de pacientes e familiares que enfrentam doenças graves e progressivas. Estudantes, professores, residentes e profissionais da área puderam debater presencialmente, à tarde, na Sala Conecta, no campus São Leopoldo, e à noite, de forma online, sobre a importância de práticas fundamentadas em evidências, no compromisso ético e na sensibilidade humana no atendimento a pessoas com saúde fragilizada.
O encontro foi aberto com falas iniciais da coordenadora do curso de Enfermagem, Rafaela Schaefer; da gerente da Escola de Saúde, Tatiana Louise Alves de Campos Rocha; da representante do Conselho Regional de Enfermagem do Rio Grande do Sul, Rosane Cionet; e da coordenadora da Comissão de Residência Multiprofissional em Saúde da Unisinos, Vania Celina Dezoti Micheletti. “Estamos muito felizes em promover um espaço de discussão sobre temas tão atuais e necessários para a formação dos nossos estudantes e para a atuação dos profissionais da área. As palestrantes convidadas são referências em cuidados paliativos e contribuem diretamente para qualificar o olhar humano, ético e técnico dentro da enfermagem”, afirmou Rafaela.
Após a abertura, palestraram as seguintes profissionais:
- Juliana Petri Tavares, docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFRGS e da Residência Integrada Multiprofissional em Saúde (RIMS) do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA);
- Miriam Neis, enfermeira assessora de Operações Especiais da Diretoria de Enfermagem do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.
A necessidade de ampliar o debate sobre cuidados paliativos
Juliana abordou em sua fala sobre os princípios básicos e a contextualização dos cuidados paliativos no Brasil. A professora observou que, atualmente, o país ocupa apenas a 79ª posição entre 81 países na qualidade de morte, conforme o mais recente mapeamento global sobre a qualidade dos cuidados ao fim da vida e o desenvolvimento de cuidados paliativos, elaborado pela Aliança Mundial de Cuidados Paliativos em Hospitais (WHPCA, na sigla em inglês). “Isso demonstra como encontros como esse e o debate acerca da qualificação na formação de profissionais da saúde nos cuidados paliativos são importantes”, destacou Juliana, que reforçou a necessidade de ampliar a discussão sobre o tema nas universidades e nos serviços de saúde, visando um atendimento mais humano, digno e acolhedor aos pacientes e suas famílias.

A professora também abordou a forma de lidar com o luto e os cuidados após a morte do paciente, com acompanhamento contínuo de familiares e amigos próximos. Além disso, falou sobre a nova política de cuidados paliativos no Brasil, lançada pelo Ministério da Saúde em 2024, que visa à criação de equipes multiprofissionais para disseminar práticas às demais equipes da rede, promover informação qualificada e educação em cuidados paliativos, além de garantir o acesso a medicamentos e insumos necessários para quem está em cuidados paliativos.
Ao final de sua apresentação, Juliana compartilhou experiências vividas ao longo da carreira, e ressaltou a importância do vínculo entre profissional e paciente. “Não há como praticar cuidados paliativos sem que haja empatia e compaixão com a pessoa que está sendo tratada”, afirmou.
Humanização e escuta no cuidado paliativo pediátrico
Miriam focou sua fala nos cuidados paliativos na pediatria. Ela falou sobre o avanço tecnológico dos últimos anos e como a mudança no perfil epidemiológico pediátrico é marcada pelo aumento das chamadas Condições Crônicas Complexas (CCC), problemas de saúde de longa duração (mais de 12 meses) que afetam múltiplos sistemas orgânicos e exigem cuidados altamente especializados. “Com os avanços médicos, houve uma transição em que as doenças agudas deram lugar a condições neurológicas, genéticas e malformações que geram dependência tecnológica, exigindo que os cuidados paliativos atuem de forma continuada, domiciliar e multiprofissional”, sublinhou a enfermeira. Ela ressaltou a importância de focar não apenas em procedimentos técnicos, mas também na humanização do atendimento aos pacientes.

Miriam também lembrou que os cuidados paliativos na pediatria ainda são recentes. O primeiro documento relacionado ao tema foi publicado apenas em 2000 pela Academia Americana de Pediatria (AAP), com o objetivo de estabelecer diretrizes e treinar profissionais para o alívio da dor e a assistência ao fim da vida em crianças. A enfermeira enfatizou a importância de proporcionar atividades lúdicas e compreender as diferentes realidades de cada um. “Dar voz às crianças é fundamental na construção de um bom cuidado. Entender que elas têm realidades diferentes e respeitar suas opiniões qualifica o atendimento e humaniza a relação entre nós”, afirmou Miriam. Por fim, ela destacou a necessidade de ampliar a qualificação dos profissionais de enfermagem na área dos cuidados paliativos.
Isabella Leitão Garcia, estudante do 5° semestre de Enfermagem, salientou a importância de abordar tanto o viés adulto quanto o pediátrico nos cuidados paliativos. “As palestras foram muito enriquecedoras para nossa formação, e nos trouxe diferentes visões e realidades acerca dos cuidados paliativos. Poder compreender essas experiências e refletir sobre a importância da humanização no cuidado amplia nosso olhar como futuros profissionais da saúde”, disse.
As diferentes dimensões do cuidado
A mesa-redonda “Cuidado centrado no paciente em cuidados paliativos” ampliou o debate sobre a integralidade da assistência e o compromisso ético da enfermagem frente às diferentes dimensões do cuidado. O encontro ocorreu de forma online, à noite, e reuniu profissionais de diferentes áreas para discutir práticas voltadas à valorização da subjetividade humana, da autonomia do paciente e do acolhimento às famílias em processos de adoecimento e finitude.
Foram abordados temas como “Espiritualidade e cuidado integral”, assunto defendido pela enfermeira Marta Georgina Oliveira de Goes; “Apoio à família e luto”, conduzido pela psicóloga Natalia Schopf Frizzo; e “Diretivas antecipadas de vontade”, apresentado pela advogada Nelma Maria de Oliveira Melgaço. As discussões reforçaram a importância de um cuidado humanizado, interprofissional e centrado no paciente, considerando não apenas aspectos físicos, mas também emocionais, sociais, espirituais e legais envolvidos nos cuidados paliativos.