Estudo da Unisinos aponta associação entre clima e internações por esquizofrenia e reforça impacto de variáveis climáticas na saúde mental

Pesquisadoras identificam padrão sazonal robusto nas hospitalizações e destacam que alterações climáticas já estão modificando a dinâmica de doenças no Rio Grande do Sul

Crédito: Shutterstock

Um estudo inédito realizado pelas pesquisadoras da Unisinos, Juliana Scherer e Mellanie Fontes-Dutra, identificou um padrão sazonal significativo nas internações por esquizofrenia em Porto Alegre, associando picos de hospitalização a períodos com menor exposição solar e temperaturas mais baixas. A análise abrangeu 9.200 internações registradas entre 2013 e 2023 e revelou que outono e inverno concentram os maiores índices, enquanto o verão apresenta os menores valores.

As autoras destacam que a investigação surgiu em um contexto de mudanças climáticas perceptíveis no estado. “Muito antes das enchentes de 2024, já observávamos invernos atípicos, períodos anormais de precipitação e impactos crescentes na saúde humana e animal. Casos recordes de dengue e eventos extremos vêm alterando a circulação de doenças e agravando condições crônicas e a saúde mental”, explica Mellanie. Foi esse cenário que motivou o grupo a questionar de que forma variáveis climáticas poderiam estar associadas a agravos neuropsiquiátricos.

Ao revisarem a literatura científica, as pesquisadoras encontraram trabalhos que apontam aumento na frequência de certas condições neuropsiquiátricas, mas nenhum que estabelecesse, de forma direta, as associações analisadas com a população local. “O que fizemos ainda não havia sido observado dessa forma no Brasil. Há um movimento crescente — nacional e internacional — que usa o conceito de Uma Só Saúde para entender como a aceleração das mudanças climáticas atravessa a saúde da sociedade”, afirma Fontes-Dutra.

Náthaly Barcellos

A coleta utilizou bases públicas, como o Sistema de Informações Hospitalares do SUS e dados meteorológicos do INMET. A pesquisadora reforça, porém, que há limitações conhecidas nesses sistemas. “A padronização dos registros, a integridade dos dados e eventuais subnotificações ou diagnósticos equivocados precisam ser considerados”, aponta.

Apesar das restrições, a robustez estatística dos resultados identificada é expressiva: a sazonalidade indica uma associação consistente entre variáveis climáticas e hospitalizações. “Quando observamos as hospitalizações ao longo do tempo, percebemos movimentos que acompanham as mudanças do ambiente. Mais do que números, esses dados representam pessoas que enfrentam desafios complexos de saúde. Entender esses ciclos pode nos ajudar a cuidar melhor — especialmente em momentos críticos do ano”, comenta Juliana Scherer.

Crédito: Arthur Woltmann

Entre os fatores analisados, a exposição à luz solar foi a que mais se destacou. Segundo Scherer, estudos internacionais já apontam elementos ambientais associados à regulação do humor. “O que oferece uma base fisiopatológica para entender descompensações e agravos, como surtos psicóticos. A saúde mental não está isolada do ambiente, do corpo ou do território. A ciência caminha para uma abordagem integrada — e é isso que o conceito de Uma Só Saúde propõe: enxergar a saúde humana, a saúde animal e o ambiente como dimensões interligadas. Nossos achados reforçam essa visão e apontam para a necessidade de políticas públicas mais intersetoriais”, explica.

Mellanie ressalta, porém, que o estudo não prova causalidade. “A associação encontrada não significa que a variável climática seja responsável direta pelas internações. Trata-se da interação complexa de elementos que podem culminar na descompensação. Mas o entendimento dessas relações é um passo essencial para predizer riscos e identificar populações mais vulneráveis.”

Os achados dialogam com uma tendência global: o clima como fator decisivo para a compreensão ampliada da saúde. Entre os impactos das mudanças climáticas, as pesquisadoras citam a menor resiliência do corpo para se adaptar a condições extremas e alterações nos padrões comportamentais, como a redução da exposição solar. “Esses fatores influenciam a modulação do sistema nervoso, a transmissão entre neurônios e até a conectividade neural”, explica Fontes-Dutra. Embora o estudo não investigue diretamente esses mecanismos, análises internacionais sugerem caminhos fisiológicos possíveis.

Um dos objetivos da pesquisa é tornar esse conhecimento aplicável ao planejamento do sistema de saúde. “Queremos criar modelos preditivos que ajudem a pautar políticas públicas, reforçando o atendimento em períodos críticos. Assim, é possível fortalecer a resiliência da sociedade e mitigar impactos”, afirma Fontes-Dutra.

Para Juliana, traduzir resultados científicos em ferramentas para o SUS é um dos maiores desafios. “Precisamos sair da lógica de tratar o sofrimento apenas depois que ele aparece. A ciência já permite prever períodos críticos e direcionar recursos. Integrar clima e saúde na vigilância epidemiológica é uma oportunidade real de transformar a assistência e ampliar a autonomia das populações mais vulneráveis.”

Segundo as pesquisadoras, é tecnicamente viável desenvolver sistemas de alerta baseados em previsões climáticas — mas ainda é necessário compreender mais profundamente como cada variável se relaciona com desfechos de saúde.

O estudo integra um núcleo de pesquisa em mudanças climáticas e saúde única, que nos últimos anos tem ampliado sua atuação. Mellanie relata que, desde a pandemia de Covid-19 e após seus pós-doutorados em virologia, passou a investigar com mais profundidade o vínculo entre crise climática e saúde. “Construímos uma parceria interdisciplinar sólida, que resultou em novos projetos, incluindo um edital da FAPERGS selecionado recentemente.”

Os próximos passos incluem expandir investigações para outros agravos, como doenças crônicas não transmissíveis e doenças transmissíveis exacerbadas por padrões anormais de precipitação. O grupo também planeja desenvolver algoritmos de aprendizado de máquina para mapear correlações mais complexas e propor políticas públicas baseadas na relação clima–saúde.

“Nosso propósito é contribuir para um olhar integral sobre a saúde, considerando a interlocução entre clima, ambiente e sociedade. A ciência já mostra que o impacto das mudanças climáticas está no centro dessa discussão — e precisamos traduzir esse conhecimento em ação pública”, conclui Mellanie.

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