Por que você não coleciona selos como todo mundo? Velhice e objetos de coleção na trajetória de Urbano, O Aposentado

Leila Beatriz Ribeiro

Resumo


Pretendemos com esse artigo, a partir das tiras de Urbano, O Aposentado, discutir as coleções de objetos “inúteis”, em um contexto de patrimônio e de memória social. Nas diversas coleções de “inutilidades”, as memórias e as lembranças evocadas pelos objetos – muitos deles biográficos – constituem relações especulares e subjetivas no mundo reordenado de Urbano. Aquelas se transformam em possibilidades de potência e de experiências de uma vida renovada para si mesmo e para o grupo que o cerca. Viajar pelos lugares através dos cartões-postais; compartilhar com a estátua viva na pracinha, as músicas de sua coleção de caixinhas de música, etc. são formas de estreitamento, afirmação de uma identidade e de uma “pacífica impressão de continuidade”. Essa impressão encontra-se reforçada pela “companhia das coisas que envelhecem conosco”, no dizer de Bosi (1994, p. 441), já que a coleção tem o poder de representar o indivíduo, fazendo com que o objeto se perpetue como fator de ligação entre o indivíduo e o mundo que o cerca. Essas representações sob a ótica informacional propiciam chaves de leitura dentro de um quadro maior da sociedade brasileira: o de idoso aposentado. Por que não enxergar a prática colecionista de Urbano como uma metáfora de resistência ao descarte, como uma crítica aos hábitos de consumo, à morte das coisas? Se a velhice e os aposentados são categorias sociais, por que não relacionarmos os objetos de Urbano, passíveis de descarte, com algumas representações da terceira idade e do aposentado como improdutivas?

Palavras-chave: objetos de coleção, patrimônio, velhice.


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