Reconhecendo emoções para fortalecer vínculos

Projeto Artecriando utiliza o teatro e o artesanato para trabalhar e expressar sentimentos

RENATA CARDOSO

Aprender a expressar os sentimentos pode ser revolucionário. E, de fato, transforma as vidas dos jovens que participam do projeto Artecriando, que busca, por meio das artes cênicas e do artesanato, trabalhar o reconhecimento das próprias emoções, a forma de expressá-las, a criação de vínculos e a cidadania.

Roberta Darkiewicz, é formada em teatro e atua como educadora no projeto há três anos. “O que mais me chama a atenção é a oportunidade de trabalhar com adolescentes. O pensamento crítico deles e a possibilidade de construir dramaturgias em conjunto e, a partir das vivências trazidas por eles, é muito interessante”, frisa a professora. A partir dessas construções é possível pensar como se narrar no teatro, como construir uma história pensando nas próprias vivências, trabalhando justamente a expressão das emoções. “Conseguir expressar os sentimentos nos ajuda em diversas questões. Acredito que nos tornamos agressivos/violentos quando não conseguimos expressar a falta de algo. Trabalhamos muito no sentido de reconhecer as emoções e saber expressá-las, de criar melhores relações consigo, em primeiro lugar, e depois com os outros”, conta Roberta.

[Teatro de sombras artecriando Crédito: Rodrigo W. Blum

Cristian, 16 anos, e Maurício, 14 anos, são dois jovens que participam do projeto e comentam como tem dado certo trabalhar os próprios sentimentos e o fortalecimento de vínculos. Para Cristian, conviver com pessoas diferentes, conseguir perder a vergonha e falar mais alto em público foram alguns dos benefícios trazidos pela ação. “Temos que superar os momentos tristes e correr atrás do que queremos. Hoje, eu tenho menos vergonha, menos medo”, garante o jovem.

Maurício aprendeu a se expressar melhor, tornou-se mais aberto e desinibido. “Eu trabalhei muito a questão da autoestima. Eu comecei a refletir mais sobre meus sentimentos e emoções, a lembrar a mim mesmo, que eu sou uma pessoa boa”, conta. “Aqui a gente cuida um do outro. A gente fala que o projeto é uma família e cada um é importante. Eu acho que o projeto mudou minha vida, abriu minha cabeça para novas experiências”, garante o adolescente, que se sente orgulhoso por, a partir das técnicas ensinadas nas aulas de artesanato, conseguir deixar diversos itens com o seu estilo, renovando peças com as próprias mãos.

[Teatro de sombras artecriando Crédito: Rodrigo W. Blum

A autoestima, a valorização do respeito, a coletividade e temas ligados ao mundo do trabalho são pensados nas atividades do projeto, que além das oficinas de teatro e artesanato conta com ações de formação cidadã. Izalmar Liziane Carvalho é assistente social e trabalha há sete anos no Artecriando, que também aborda temas como as relações étnico raciais, o cuidado com a vida e o meio ambiente e a superação da pobreza. “O que me motiva é acompanhar o desenvolvimento deles, isso nos faz ver que vale a pena estar aqui”, enfatiza.

O foco do projeto não é formar artistas, mas apostar no fortalecimento de vínculos, na criação de relações saudáveis. “A gente faz muitos exercícios para chegar no palco e conseguir comunicar o que queremos. Estamos aqui para produzir vida, superar a vergonha, os problemas, as ausências e criar a partir disso”, reforça Roberta. Para o coordenador do projeto, Pe. Idinei Zen, o mais importante é ajudar na formação dos jovens, para que eles se tornem cidadãos. “As ações têm que ser esse espaço onde eles são acolhidos, compreendidos e ajudados”, finaliza.