Precisamos falar sobre transplante de órgãos

Falta de informação sobre o tema é um dos principais desafios

BETINA ALBÉ VEPPO

Gradativamente, o Brasil vem aumentando o número de doadores por milhão de pessoas. Segundo a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos, de janeiro a setembro de 2017, nosso país realizou 6.442 transplantes de órgãos (coração, fígado, pâncreas, rim, pulmão) e 11.638 transplantes de tecidos (córnea, ossos, válvula, pele). O Brasil é o segundo país que mais realiza transplantes renais e hepáticos, estando atrás apenas dos Estados Unidos. Além disso, nosso sistema público de transplantes é um dos maiores do mundo, acolhendo 92% dos procedimentos.

As notícias são boas, mas esses números, infelizmente, ainda não são suficientes para ajudar os cerca de 40 mil brasileiros que estão na fila de espera para a doação de órgãos no país, segundo o Ministério da Saúde. “O debate ainda é um tabu para muitos que não conhecem a fundo o assunto”, salienta Rosália Borges, coordenadora da Especialização em Transplantes de Órgãos e Tecidos da Unisinos.

”É um momento delicado tanto para quem é um provável doador, quanto para quem está em uma lista de espera há anos.”

Rosália Borges, coordenadora da Especialização em Transplantes de Órgãos e Tecidos da Unisinos.

 

Segundo a professora, a legislação brasileira, que se espelhou em modelos espanhóis, é bem estruturada e rigorosa. Porém ainda falta informação, para que se consiga captar um número maior de possíveis doadores. “Existem, hoje, mais casos em que a família arbitra sobre a doação dos órgãos de um paciente do que algum registro sobre sua vontade”, afirma Rosália. De acordo com a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), 43% das famílias se recusam a doar os órgãos de parentes. A média mundial gira em torno de 25%.

Antigamente, o Brasil identificava doadores com registros no RG, mas a medida não prosperou. Conforme a lei brasileira, quem tem interesse em ser doador deve notificar a família, pois é ela quem podem autorizar a doação. No caso de não familiares, a doação só acontece mediante autorização judicial. “Não basta haver legislação, comitês e organização de equipes, a população também precisa se conscientizar. Um doador pode salvar até oito vidas”, salienta a professora.

[ Sala de cirurgia preparada para transplante Crédito: Getty Images

Para a fila andar

Ainda existem muitos desafios a serem enfrentados, quando se fala em doação e transplante de órgãos e tecidos. No Rio Grande do Sul, há em torno de 1,2 mil pessoas na demorada fila do transplante, e a média de espera por um fígado, por exemplo, é de aproximadamente um ano.

A Unisinos, com o objetivo de qualificar profissionais para atuar de maneira multidisciplinar nesse campo, oferece a Especialização em Transplantes de Órgãos e Tecidos: integralidade do cuidado e multidisciplinaridade. Esse curso é o único no Brasil a ter enfoque multiprofissional e proporcionar estágio prático em um hospital que é referência em transplantes na América Latina, o Hospital Dom Vicente Scherer, da Santa Casa de Porto Alegre.

O foco no cuidado humano acontece por meio do acompanhamento em todo o processo – pré-, intra- e pós-transplante, englobando áreas de enfermagem, nutrição, serviço social, fisioterapia, farmácia e psicologia, medicina e biomedicina. O conhecimento adquirido considera as necessidades da família e colabora para a disseminação do conhecimento sobre o tema, aumentando, assim, o número de doadores no país.

No RS e no mundo

O ano ainda está no início, mas o primeiro mês trouxe uma chama de esperança para quem está na fila à espera da doação de um órgão para transplante, para as famílias de quem está na luta, e para todos aqueles que, de longe, torcem pela causa. O Hospital Dom Vicente Scherer, referência na área, atingiu marca inédita de transplantes no período. Foram realizados 59 procedimentos, 24 a mais do que em janeiro do ano passado.

Em nível global, a Holanda aprovou, na semana passada, uma lei que torna todos os adultos do país automaticamente doadores de órgãos, a não ser que manifestem vontade contrária. Outros países, como Bélgica e Espanha, também possuem sistemas semelhantes. A Espanha é referência mundial quando o assunto é transplante – são registrados perto de 40 por milhão, no Brasil essa taxa está próxima de 20.