Jovens americanos concluem cinco meses no Brasil

Intercâmbio cultural proporciona diferentes vivências em vários lugares do mundo

BETINA ALBÉ VEPPO
27 de Junho de 2014 - 15:57 | Atualizado: 07 de Julho de 2014 - 11:10

Desde fevereiro deste ano, os americanos Hannah West, Stewart Ragan, Hannah Morrison e Taylor Schultz estão em intercâmbio no Brasil. Eles vieram com o programa Hands On, da Junta de Missões Mundiais da Convenção Batista do Sul, o qual permite que estudantes universitários permaneçam por um semestre inteiro em diferentes partes do mundo. Antes de partirem para a América do Sul, os estudantes não se conheciam. Hannah W. é do Arkansas, Stewart é de Connecticut, Hannah M. é de Carolina do Sul e Taylor, da Geórgia. Em comum, apenas um desejo: o de conhecer o Brasil.

Já imersos na cultura, Hannah e Stewart conversaram com a Redação do Notícias Unisinos e contaram um pouco sobre a vida aqui. Hannah revela que amigas suas, que já visitaram o Brasil, a incentivaram na escolha. “Elas disseram: ‘é muito legal, as pessoas são muito hospitaleiras e a comida é ótima, tu vais amar’. Então eu vim, até porque aqui eu posso trabalhar com pessoas da minha idade”, conclui. Na hora da inscrição, os interessados devem indicar lugares aonde gostariam de ir. Então o programa escolhe os locais em comum entre os interessados e eles formam grupos para viajar. Para cada país, o programa determina uma atividade diferente, entre elas trabalhar com crianças, participar de negócios, estar em meio a universitários.

[Stewart, Hannah e Chris acompanharam os jogos da copa no Unilínguas

Stewart revela que o momento de decisão pelo país foi difícil para ele. “Eu rezei e pedi: ‘Deus, para onde você quer que eu vá?’ Se você quiser que eu vá para o Brasil, por favor, deixe isso óbvio. Então, eu acabei sendo aceito e aqui estou”. Quando questionado se esse interesse era essencialmente pelo fato de o Brasil ser sede da Copa do Mundo, ele afirma: “Claro que foi um grande atrativo na hora de escolher, até porque eu sou louco por futebol, mas como eu poderia me formar em junho de 2014, eu não poderia trancar a faculdade meramente pelo evento. Eu vim, pois acreditei que isso pudesse fazer diferença no meu crescimento pessoal. Eu não sinto nenhum arrependimento”, afirma.

Quem os ajudou com a escolha das famílias e a adaptação foi Chris Julian. Ele é missioneiro batista e natural do Tennessee, mas vive no Brasil há 19 anos. Já morou em Campinas, Aracajú, São Paulo e aqui, em São Leopoldo. Chris e sua esposa, Melody, já hospedaram estudantes enquanto moravam em São Paulo e agora, em São Leopoldo, também. Chris relata “foi muito importante para os estudantes permaneceram nesse período de quatro meses em famílias nativas. Assim, puderam conhecer melhor a cultura brasileira e gaúcha, além de trocar experiências”.

Dentre as atividades vivenciadas aqui, a de maior destaque é a Copa do Mundo. Os estudantes, amantes do futebol, acompanharam os jogos, torceram e se emocionaram junto aos brasileiros. A estreia dos Estados Unidos foi assistida no Unilínguas, com direito a refri e pipoca. Na área de convivência do instituto de idiomas, os alunos proporcionaram a quem tivesse interesse momentos de bate-papo em inglês, de segunda a quinta-feira, no horário vespertino. Os tópicos das conversas variavam entre conversação livre e tópicos específicos.

[Os jovens se encontravam principalmente na área de integração do Unilínguas

Quem já morou fora sabe que uma das maiores dificuldades enfrentadas é a diferença do idioma. Para conseguirem entender frases básicas, como “onde fica...?”, “como se chama?”, “quanto custa?”, eles participaram de aulas de Português para Estrangeiros no Unilínguas. Stewart conta que as lições foram boas para todos. “A gramática, como em outras línguas, é difícil de aprender. Acho que a pior parte, para mim, foi a conjugação de verbos. Não foi divertido, mas foi importante. Agora nós podemos não dizer apenas palavras aleatórias, mas falar a frase inteira”, salienta. Ele, que já tomou aulas de chinês, por ser descendente de asiáticos e se interessar pela cultura, frisa que o segredo é ter desenvoltura na hora de falar. “Antes eu tinha vergonha de me expressar e, por isso, ficava mais quieto. Depois, aprendi que você não precisa ter uma pronúncia perfeita ou saber toda a gramática correta de uma língua que não é a sua, o importante é se comunicar e ser entendido”, enfatiza. Hannah estudou espanhol no ensino médio, mas afirma nunca ter tido a oportunidade de colocá-la em prática. “Cheguei a me inscrever para ir ao Chile, para conseguir aprofundar meus conhecimentos no idioma, mas como vim ao Brasil, não cheguei a usar”, comenta. Ela relata que o seu maior problema é com masculino e feminino. “Em inglês, não diferenciamos gênero, o que nos deixa muito mais suscetíveis a errar”, conta.

O principal objetivo do intercâmbio é, além das trocas culturais, o diálogo inter-religioso. Sobre a relação do brasileiro com a religião, Stewart garante: “Percebo que há a busca da verdade dentro da religião”. E acrescenta: “Muitos acreditam que existe algo maior, uma força espiritual – o que nós chamamos de Deus -, mas eles não gostam de discutir sobre uma religião especificamente. Quando se fala na palavra ‘igreja’, ela soa como uma palavra ruim. As pessoas rejeitam. Mas quando tu chegas a alguém e diz: em que tu acreditas? Então elas se abrem mais para discutir o assunto”. Hannah afirma que, nessa questão, existe uma grande diferença entre Brasil e EUA. “Lá, as pessoas gostam de rótulos, por exemplo, ‘eu sou cristão, eu sou judeu, eu sou muçulmano’, mesmo quando não frequentam ou sequer leem sobre religião. Aqui, quando perguntamos sobre isso, as pessoas dizem que não seguem nenhuma, mas que acreditam em algo maior”.

Desde a chegada, ambos afirmam terem mudado como pessoa. “Hoje, eu olho para os outros de uma forma diferente. Eu vejo todos como possíveis amigos. Desta forma, eu consigo notar e apreciar mais as pessoas”, alega Hannah. Stewart coloca que, por ser tão rotineira a chegada de estrangeiro aos Estados Unidos, às vezes, eles nem percebem como é estar no papel. “Aqui, eu sou o estrangeiro e consigo entender melhor as adversidades pelas quais eles passam”, ressalta. “Lá, em muitos momentos, eles são ‘as outras pessoas’. Agora, quando essas situações ocorrerem novamente em minha cidade, eu vou estar apto a dizer “eu te entendo, eu posso te ajudar”.