Tempo de discutir “o tempo”

JOSI SKIERESINSKI E PEDRO HAMEISTER - MESCLA
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Na tarde do dia 6 de agosto, os professores da Unisinos Gabriela Gonçalves e Paulo Fochi abriram as apresentações do TEDxUnisinos anunciando o tema do evento deste ano: “um novo tempo”. A equipe de organização já havia definido em 2019 que os speakers (palestrantes) abordariam em suas talks (falas) a temática. Mas nem de longe poderiam prever que estaríamos realmente vivendo “um novo tempo”.

Distante fisicamente da plateia – mas igualmente inquietante –, a 10ª edição do TEDxUnisinos, dividida em dois dias, foi pensada para não abandonar o palco, elemento tradicionalmente presente nas talks. Era dele, do palco do Teatro Unisinos Porto Alegre, que Gabriela e Paulo chamavam os speakers, que surgiam em uma imensa tela, via Zoom, e mobilizavam o público, que acompanhava tudo igualmente via aplicativo. Logo no início, a plateia virtual foi convidada a imergir em pensamentos e questionamentos: “quem era você em 2019?”, “quanto tempo você tinha?”, “quanto tempo você tem agora?”

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“Você tem medo porque me conhece, ou me conhece porque tem medo?”

Valéria Barcellos

Os ventos que sopram a favor da diversidade promoveram as apresentações dos convidados, realizadas no formato de audiodescrição. “Dulce Ribeiro, mulher cis, branca, de 66 anos”, anunciou a locução, dando início às talks. Professora, mestra em Antropologia das Organizações e estudiosa do desenvolvimento humano, ela falou da impaciência com o tempo das coisas, da intolerância sobre o próprio tempo e o tempo das outras pessoas. “Tudo acontece no tempo que deve acontecer e não no tempo em que desejamos que aconteça”, disse Dulce.

Ricardo Yudi atentou a todos para diferenciar a fome da vontade de comer. Yudi, que é professor do curso de Gastronomia na UFCSPA e sócio do Justo, localizado em Porto Alegre, defendeu que o consumo dos alimentos devem ser realizados de acordo com as fases de colheita. E alerta que estamos colocando os desejos acima das necessidades. “Precisamos tornar a alimentação justa e acessível, para que as inclusões não sejam finitas”, ressaltou. Yudi também é mestre em Design Estratégico e doutorando em Design, ambos pela Unisinos.

Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), em Minas Gerais, Ailton Krenak é ativista do movimento socioambiental de defesa dos direitos indígenas e autor dos livros “Ideias para adiar o fim do mundo” e “O amanhã não está à venda”. Ele foi o convidado surpresa da tarde. Diretamente do Vale do Rio Doce, no Estado mineiro, o líder indígena disse que as pessoas falam do tempo sem valorizá-lo. “Dizemos ‘até amanhã’ com a certeza de que ele irá existir. No entanto, não temos como saber com exatidão”, refletiu. Ele encerrou sua participação com um pedido: “Vivam a experiência de cada dia como se fosse um presente”.

Valéria Barcellos é cantora, atriz, DJ e escritora. Ela começou sua talk lembrando situações de transfobia e medo pelas quais já passou. Mas logo fez um alerta: “Você pode entender o que é, mas nunca vai saber como é”. E seguiu provocando: “quantas pessoas trans você conhece? Quantas vocês já convidaram para um aniversário, para jantar na sua casa?”. Valéria colocou a plateia virtual a pensar: “Você tem medo porque me conhece, ou me conhece porque tem medo?”

Doutora em Informática na Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pesquisadora no Programa de Pós-Graduação de Linguística Aplicada da Unisinos, Eliane Schlemmer falou sobre as maneiras de aprendizagem, como a híbrida, e destacou que a pandemia de Covid-19 evidenciou a forte desigualdade de acesso e a falta de cultura digital nas escolas. “É uma crise generalizada na aprendizagem. Devemos repensar e questionar a maneira como tudo isso vem sendo feito”, ponderou.

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Professora em programas de desenvolvimento e liderança, cofundadora da Ponte – hub de diversidade e inclusão – e do cursinho pré-Enem Morro do Papagaio, em Minas Gerais, Grazi Mendes apontou, em sua fala, números da exclusão: apenas 4% dos executivos brasileiros são pessoas negras, e, desse grupo, apenas 0,4% são mulheres. Grazi disse que se incomoda quando é apontada como exemplo de mérito, quando, na verdade, “é exceção da exceção”. Ela faz parte da primeira geração de mulheres negras que quebrou o ciclo de trabalho doméstico no Brasil, “uma espécie de função hereditária”. “Como aumentar a porcentagem de executivos negros se a cada 23 minutos um jovem preto é assassinado neste país? E a cada quatro minutos uma mulher é agredida? Nosso normal é violento, injusto, desumano e desigual. E ele não vai desaparecer só porque fingimos que não vemos”, afirmou Grazi. Para ela, não precisamos de um novo normal, mas de lideranças mais corajosas para mudar o hoje.

Walter Kohan é professor titular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e cientista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). Walter direcionou sua fala para a educação. Ele questionou a função da escola hoje, comparando-a com a da época em que foi criada, ainda pelos gregos. “A escola se tornou uma instituição moderna, disciplinadora e produtora de sujeitos próprios do sistema capitalista que vivemos hoje”, avaliou. Walter lamentou que a etimologia da palavra grega scholé (tempo livre, tempo próprio para aprender o que se quer) é bem diferente do sentido produtivista, de tarefa ou imposição, que desinteressa a tantos.

Geólogo, mestre e doutor pela UFRGS, Rualdo Menegat desenvolveu seu estudo com base nos mistérios da civilização Inca, que ergueu a cidade de Machu Picchu, no Peru. Com base em seus conhecimentos, Rualdo explicou como aquele povo se desenvolveu em princípios sustentáveis. “Com eles, podemos aprender como é possível construir respeitando a natureza e as vidas humanas. Entender a diversidade das culturas sul-americanas é fundamental para todos que aqui vivem”.

Para finalizar a tarde de apresentações, a atração cultural foi o compositor e poeta Duda Fortuna. Produtor cultural, Duda apresenta e produz o Sarau Livre.

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A vida não é quantitativa, é qualitativa”

Marília Veríssimo Veronese

No segundo dia de talks, Ana Cláudia Tonelli, médica no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, professora do curso de Medicina da Unisinos e doutora em Cardiologia e Ciências Cardiovasculares pela UFRGS, falou sobre o cuidado e seus contextos no tempo. Ana compartilhou duas histórias vividas por ela em seu trabalho. Em cada uma delas, havia um paciente em estado grave que iam contra as expectativas. “Ele, o paciente, foi quem cuidou dos médicos, seja mantendo a cabeça erguida ao receber más notícias ou contando uma piada que fazia todos rirem, com gosto”, lembrou.

Dirceu Corrêa Júnior apresentou a talk “Economia dos dados e a renda tecnológica compensatória”. Com longa experiência profissional em análise comportamental de consumo, foi o palestrante do segundo dia do TEDxUnisinos que abordou o tema da tecnologia. Dirceu focou mais especificamente no avanço dela com o passar do tempo. “Hoje, temos um uso cada vez maior de dados produzidos pelas pessoas, marcas e empresas”, constatou.

Marília Veríssimo Veronese é doutora em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e pós-doutora em Sociologia no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, em Portugal. Em sua talk, falou da forma como o tempo é medido pelas pessoas. Citando filósofos alemães e músicos brasileiros, Marília questionou o uso da duração de vida de uma pessoa como “régua” para o seu tempo no mundo. “A vida não é quantitativa, é qualitativa”, acredita.

Jornalista formada pela Unisinos, Lelei Teixeira trabalhou em diversos veículos de imprensa e, atualmente, assina o blog “Isso não é comum”, do portal Sul21. Nascida com nanismo, ressaltou a importância de discutir o preconceito com pessoas nascidas com o transtorno, sobretudo em novos tempos. “As pessoas colocam o nanismo como uma questão de superação. Mas o que temos para superar?”, indagou.

Edu O. é professor da Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia (UFBa). Ele questionou sobre a definição estabelecida pela sociedade sobre o que é e não é “normal”, enfatizando a baixa representatividade de pessoas com deficiência física em espaços como o teatro e a dança. Edu, que possui deficiência física, contou que nunca se identificou com os olhares de tristeza que recebia dos “bípedes”, termo utilizado por ele para se referir a pessoas sem deficiências físicas. “Não existe forma de pensar no futuro da humanidade sem incluir as pessoas com deficiências”, afirmou.

Nascido e criado no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, Raull Santiago é ativista e fundador dos coletivos Papo Reto, Movimentos e Perifa Connection, além de fazer parte da Anistia Internacional Brasil. Em sua talk, exaltou o poder da transformação social, enfatizando vivências que ele teve na comunidade da qual se orgulha de ter crescido – e de onde não pretende ir embora. “O que você tem feito para mudar a sociedade e criar um novo tempo?”, provocou.

A última palestrante desta edição do TEDxUnisinos foi Luiza Serpa, publicitária com uma longa trajetória nas áreas de comunicação interna e marketing. Ela é também co-fundadora do Instituto Phi, responsável por apoiar causas sociais. Luiza também falou sobre transformação social e a criação de um novo amanhã, enfatizando a importância das doações para pessoas necessitadas. “Como seria maravilhoso para todos se a generosidade falasse mais alto nos corações das pessoas”, observou.

A atração cultural foi a cantora Rê Adegas, que possui longa trajetória na música. Indicada três vezes ao Prêmio Açorianos de Música, participou do The Voice Brasil, da Rede Globo, em 2018. Adegas, que atualmente mora em Lisboa, trouxe sua bela voz para encerrar o TEDxUnisinos, espalhando energia boa a todos os que estavam conectados no evento.

Desafios

Para Gabriela Gonçalves, organizadora do TEDxUnisinos, foi uma rica experiência preparar esse evento no formato totalmente online, apesar dos muitos desafios. “Recebemos muitas manifestações de carinho e de agradecimento pelo formato acessível e pelo tema escolhido. Já estamos nos preparando para a próxima edição, que ainda não sabemos se seguirá nesse formato ou se, quem sabe, fazê-lo presencialmente”, vislumbra.

Crédito:Felipe Nogs

Semana que vem, o TEDxUnisinos iniciará a divulgação dos vídeos gravados de suas talks, que ficarão disponíveis ao longo dos próximos dois meses. Os interessados em acompanhar o lançamento das gravações e demais informações sobre o TEDxUnisinos podem acompanhar as redes sociais do evento no Facebook, Instagram e Twitter.