Racismo: o que você tem a ver com isso?

No dia internacional Contra a Discriminação Racial, a Unisinos traz conteúdo para te ajudar a entender como o racismo ainda afeta a sociedade

KARLA OLIVEIRA
21 de Março de 2017 - 15:56 | Atualizado: 23 de Março de 2017 - 15:28

Discutir o racismo na sociedade brasileira sempre é um assunto controverso. Principalmente quando uma parcela significativa da população insiste em dizer que este é um problema que não existe. Todos são miscigenados, multirraciais, coloridos. Será mesmo? 

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Para início de conversa antes de avançar no texto, você precisa saber de duas coisas: primeira, o racismo existe. Ele não é um fantasma do passado e muito menos foi extinto. Segunda, você, provavelmente, já teve atitudes que confirmam isso. Se passou pela sua cabeça que essas duas afirmações são um absurdo, acompanhe o texto.

O sistema é racista

No Brasil não aconteceu a segregação racial violenta que tomou conta dos Estados Unidos especialmente nos anos 60 do século XX, mas isso não significa que a vida dos negros tenha se desenvolvido de maneira muito melhor. A realidade do negro no Brasil é marcada pela desigualdade na educação, no mercado de trabalho, no acesso à saúde e na violência que é exercida sobre a população negra.

O racismo é a discriminação social baseada no conceito de que existem diferentes raças humanas e que uma é superior às outras, segundo o dicionário de língua portuguesa. Apesar de provada a impossibilidade da divisão dos seres humanos em raças, o racismo estruturado age na sociedade como se elas existissem, materializando a construção social das raças. 

As pessoas se referem às raças e excluem ou incluem pessoas em determinados espaços e posições sociais a partir de suas características físicas. Não há raças, mas há a racialização do racismo, assim pessoas negras são, no geral, excluídas, enquanto pessoas brancas ocupam posições privilegiadas.

Como destaca a coordenadora pedagógica do Neabi Unisinos, Elisabeth Santos Natel, negros mesmo em espaços de poder, são vistos como não merecedores de ocupar aquele espaço. “Negros são vistos como subalternos, como se tivessem que estar servindo”, afirma. 

Tudo isso vem de um racismo estruturado e institucional. Ou seja, ele está na base das estruturas de poder da sociedade e atua de forma difusa no funcionamento cotidiano de instituições e organizações, provocando uma desigualdade na distribuição de serviços, benefícios e oportunidades aos diferentes segmentos da população negra. Negros ganharem menos que brancos na mesma função, porque são vistos como pessoas preguiçosas e por isso produzem menos, é um exemplo de estereótipo que sustenta esse racismo estrutural e institucionalizado.

Mas eu não vejo cor

Embora isso possa soar revolucionário, ser cego a cores é, na verdade, parte do problema. “Não ver cor” é simplesmente uma frase que ignora os elementos do racismo que ainda existem e que precisam ser consertados. 

Tudo isso é travestido por um “racismo cordial” ou, ainda, pela ideia de que no Brasil existe uma democracia racial. Ameniza-se atitudes racistas e se enaltece as vantagens da miscigenação, se esquecendo do passado violento que causou isso. Ou seja, é, de alguma maneira, naturalizar a violência contra pessoas negras. 

Racismo não é somente gritar “macaco, sujo” entre outros termos pejorativos na rua para desconhecidos negros. O racismo está presente nas relações mais íntimas e fica evidente quando é observado pelos números. 

Os estereótipos sobre negros 

Negro fugindo é ladrão, a mulher negra é mais forte, preto tem cabelo ruim, são algumas frases que pessoas negras já escutaram pelo menos uma vez na vida. O racismo estrutural no Brasil tem ajudado a sustentar uma quantidade enorme de estereótipos sobre a população negra.

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Renata Moura, graduada em Arte e filosofia, relata que o problema começa na educação que não aplica corretamente a Lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas, públicas e particulares, do ensino fundamental até o ensino médio. “Se os alunos só escutam a história de que negros são escravos, como vão aprender sobre a cultura negra e tudo que ela trouxe para o Brasil?”, questiona.

Outra problemática que começa na infância permanece até a idade adulta é o isolamento e a solidão de negros. Renata, destaca que desde a pré-escola e fora do ambiente familiar, a criança negra é ensinada a se odiar. “Ela é sempre apontada como a mais feia da turma, a que fica de fora das brincadeiras”, completa.

Para ela, a nova geração negra que tem conquistado as universidades e o mercado de trabalho, está mudando esse cenário. A beleza negra está mais em alta do que nunca, graças a chamada “Geração Tombamento”, que recupera a partir do Movimento Negro e do Movimento Black Power, posicionamentos mais firmes na luta contra o racismo, tornando a estética uma das grandes armas para afirmação da identidade e do poder negro. “As mulheres e homens negros que assumem seus blacks estão aprendendo a se amar. Eu acredito que seja uma forma de luta e resistência negra”, comenta.

Negros na universidade

Negros, não negros e o espaço de fala

Quem chegou até aqui no texto com certeza tem interesse em mudar esse cenário que coloca negros em situação de vulnerabilidade. Negros não são melhores que brancos e brancos não são melhores do que negros. Tudo o que negros precisam para terem equidade na sociedade e o mais importante, viverem plenamente, são oportunidades.

Você não precisa ceder seu espaço na universidade para um aluno negro para mudar isso, mas precisa reconhecer que se você é branco sua cor de pele te dá privilégios. Talvez você nunca tenha notado, mas eles estão aí. 

Comece avaliando quantos negros há na sua sala de aula, depois relembre o quanto você aprendeu sobre a história dos seus antepassados (italianos, alemães, espanhóis, portugueses, ingleses) e quanto foi ensinado sobre cultura negra na escola ou faculdade. Agora, olhe para a TV, suas séries favoritas, seus filmes preferidos, quantos deles tem protagonistas ou personagens negros? Quando você olha as propagandas você se enxerga? Já pediram para que você cortasse seu cabelo, porque ele parecia sujo ou chamava a atenção? Quantas vezes te abordaram pensando que você era o empregado da limpeza em algum espaço? 

Se você nunca passou por isso, você é privilegiado. Pessoas negras vivem isso todos os dias. Não, a culpa não é sua, mas como sujeito da sociedade, você tem o dever de ser agente da mudança. A luta contra o racismo é uma luta coletiva e ela só vai mudar a realidade quando você estiver disposto. Quer saber como você pode ajudar? Veja abaixo.