Mais um semestre acaba

O engajamento é dependente da compreensão de que a interação produz significado. A interação entre professores, alunos, e o assunto, através da teoria ou da prática de interesse. Mas a interação não acontece naturalmente, precisa ser projetada...
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin

Essa semana terminei as aulas em meu terceiro semestre remoto. A partir do próximo semestre devemos ter aulas híbridas, intercalando momentos remotos e presenciais, e me parece adequado fazer um balanço desse período que passou, especialmente com foco no tema que mais me ocupa em minhas pesquisas: o engajamento. O engajamento é dependente da compreensão de que a interação produz significado. A interação entre professores, alunos, e o assunto, através da teoria ou da prática de interesse. Mas a interação não acontece naturalmente, precisa ser projetada, e é por isso que como professores precisamos desenvolver competências projetuais. Como tenho dito já faz algum tempo, como professores, somos projetistas.

Um processo de ensino e aprendizagem envolve momentos críticos, especialmente quando consideramos a complexidade da conexão remota. Estes momentos podem ser mapeados através de ferramentas como a jornada do nosso aluno em aula. Essa jornada, que não é linear ou mesmo padronizada, pode conter em seu percurso momentos de escuta, de fala, de interação no pequeno e no grande grupo, de desconexão, de reflexão, de internalização, entre tantos outros processos. Para todos os processos nos quais o aluno é o protagonista, o que se espera dos professores, além da construção de um ambiente seguro e confiável é a projetação de práticas que façam sentido, que gerem significado, que sejam transformadoras.

Pensando nisso, perguntei para meus alunos sobre questões que gostariam de compartilhar sobre como foi o semestre, sobre quais práticas fizeram mais sentido, o que poderia ser melhorado, e como poderíamos ampliar as possibilidades de uma sala de aula que já se expandiu no tempo e no espaço.

Abaixo apresento 5 pontos que vieram dessa conversa informal e rica em
possibilidades.

  1. Construir a partir do interesse dos alunos: um dos pontos mais interessantes para explorar as preferências é a arte. Filmes, séries, música, livros, são veículos que comunicam quem somos e permitem o reconhecimento de semelhanças e diferenças para a construção do novo. Dessa forma, exercícios de apropriação de conhecimento que possam ser desenvolvidos tendo como elemento de intermediação a arte podem ser considerados facilitadores da produção de significado. Durante minhas atividades neste semestre busquei a compreensão de conceitos e práticas de inovação a partir da análise de espaços que fizessem sentido para os alunos, especialmente através da arte e do contexto das organizações. Esse processo respeitou as escolhas dos alunos e promoveu um duplo aprendizado, sobre o conteúdo em análise e também sobre cada um de nós.
  2. Diversificar a pedagogia: já escrevi bastante sobre o formato que busquei desenvolver para a construção das atividades remotas. Nessa proposta, destacase uma divisão não linear ou padronizada, mas compreendida em um contexto complexo, de dois momentos de aula: a clássica atividade entre professor e alunos, e o espaço para convidados. A união entre algum nível de certeza e o espaço para o incerto. A conexão entre o que já sei e o que é imprevisto, transformador. Trabalhar com convidados complexifica a atividade, mas amplia o seu impacto. Da mesma forma, a atividade de aula no conceito mais tradicional apresenta o desafio de adaptarmos nossa prática pedagógica a realidade da turma, de cada aluno, do assunto, do momento. Esse processo deve ser projetado e isso depende de um embasamento importante em termos de reconhecimento de quais as práticas e teorias da pedagogia que estão por trás de meu fazer como professor. Nesse sentido, a perspectiva de conversational learning, de Alice Kolb, é um caminho aberto, que permite adaptação a realidade do grupo e também permite diversificação. Esse caminho é o prelúdio para o que está descrito no próximo item, a importância de reprojetar, de adaptar, de redefinir.
  3. Reprojetar: ouvir os alunos é fundamental, mas ignorar suas sugestões pode ser pior do que não ter aberto o espaço de escuta. Dessa forma, quando estamos prontos para ouvir, precisamos estar prontos para repensar, transformar, modificar. Durante este semestre tive momentos importantes assim, nos quais paramos para conversar em pequenos grupos e individualmente para entender o que estava sendo adequado ao grupo, aos alunos e o que poderia ser modificado. Esse processo foi importante para a identificação de convidados relevantes para os alunos e também para uma mudança significativa em toda a construção do trabalho final de uma de minhas atividades.
  4. Promover o diálogo: este item está conectado diretamente ao anterior, a medida que o diálogo promove a reflexão, e a reflexão permite a redefinição de caminhos possíveis. Neste semestre todos os encontros tiveram como ponto principal a promoção do diálogo, a promoção de um espaço horizontal de fala e de construção coletiva, para que pudéssemos co-criar da melhor forma os momentos que iríamos interagir coletivamente.
  5. Dar feedback ampliando as possibilidades: A última prática destacada aqui é a importância de dar feedback aos alunos. Esse processo é complexo e deve considerar cada pessoa a partir de suas características. Embora não existe um padrão ou uma uma única forma de dar feedback, é importante a sua construção a partir do que recebemos do outro, a partir da relação que se estabelece, nesse caso entre professor e aluno. Meu processo de feedback começa na compreensão de que cada aluno busca fazer a melhor entrega possível em seu trabalho, dentro de parâmetros que acredita serem relevantes. Dessa forma, reforço os pontos importantes e construo nas lacunas que identifico, descrevendo uma narrativa que faz sentido a partir do apresentado, e que se expande para espaços que não foram percebidos ou explorados. Essa perspectiva faz com que o aluno se conecte na origem da conversa, reconhecendo de onde partimos e compreendendo as possibilidades inauguradas por um novo olhar, por uma perspectiva externa que não se revelou antes, mas se revela na interação.

É importante destacar que, como todo projeto, muitas coisas acontecem no caminho e redesenham as possibilidades. Os pontos aqui elencados são compreendidos em uma trajetória, e especialmente ao final de um processo que durou todo o semestre. Alguns foram intencionalmente projetados, outros foram decorrentes do processo de projeto, aberto ao acaso e a redefinição. Assim como o resultado está conectado ao processo, o processo depende dos grupos, da interação, da construção social que se realiza no dia a dia da sala de aula. Novos grupos geram novas possibilidades, novas interações, novos processos, novos resultados. Entretanto, a essência da construção precisa permanecer: a abertura ao novo, a co-criação, a escuta, a adaptação. Essas características podem favorecer o desenvolvimento de processos de ensino e aprendizagem mais significativos para alunos e para professores.

Autor: Prof. Gustavo Borba