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O novo contexto africano, paradigmas e desafios são temas de palestra em Porto Alegre

Por Bruna Mattana

Apresentar as mudanças pelas quais o continente africano passou desde a década de 1960, com ênfase especialmente a partir dos anos 2000, e analisar os desafios enfrentados pela África em cada um dos períodos, é uma das paixões do mestre em estudos estratégicos internacionais e doutorando em Ciência Política, Guilherme Ziebell. Ele ministrará palestra no dia 11 de agosto, na Unisinos Porto Alegre – Sala Santander. O evento é denominado “A África no século XXI: renascimento e novos desafios”.

Sua explanação abordará o contexto de “renascimento” do continente africano – que contou com grande participação de potências emergentes – e onde teve início um processo de securitização. Para tanto, Ziebell explicará tal processo em duas regiões de grande importância no continente africano: o Golfo da Guiné e o Chifre da África.

Na entrevista a seguir, Ziebell salienta ainda que a renovada importância do continente no século XXI está diretamente ligada à intensificação das relações dos países africanos com potências emergentes, como China, Índia e Brasil, tanto em termos quantitativos, quanto qualitativos, o que segundo ele “tem possibilitado a emergência de um novo paradigma socioeconômico, de projetos políticos, diplomáticos e sociais alternativos”.

Guilherme Ziebell é graduado em Relações Internacionais pela UFRGS, tendo realizado parte dos estudos na Université de Toulouse II – Le Mirail, França. É mestre em Estudos Estratégicos Internacionais pelo PPGEEI/UFRGS e doutorando em Ciência Política do PPGPOL/UFRGS. Além disso, foi membro do Núcleo Brasileiro de Estratégia e Relações Internacionais (NERINT) e do Centro Brasileiro de Estudos Africanos (CEBRAFRICA). Atualmente é editor assistente da Revista Conjuntura Austral, periódico do Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos Internacionais (PPGEEI) da UFRGS.

Confira a entrevista:

Fique Sabendo – A partir do começo do século XXI, a África retomou sua importância de forma global, devido a seus recursos, sobretudo o petróleo, e ações com economias emergentes. Por essa razão, os EUA voltam ao continente, movidos por novos interesses, tendo início um processo de securitização da África. No que consiste tal processo?

Guilherme Ziebell – A partir do fim da Guerra Fria o continente africano passou a vivenciar um processo de crescente marginalização internacional. O encerramento do conflito bipolar retirou do continente a sua importância estratégica, ao mesmo tempo em que abria novas oportunidades de investimento – mais próximas e mais lucrativas – aos países centrais, especialmente nas novas democracias do Leste europeu, mas também nos países com governos de orientação neoliberal da América Latina e nos chamados Tigres Asiáticos. Com isso, o continente africano teve a sua importância progressivamente diminuída nas relações internacionais.

Paralelamente, passaram a eclodir diversos conflitos no continente, frutos de processos de reestruturação das relações de poder, em um contexto de formação dos Estados africanos. Potencializados pela grande quantidade de armamentos herdados do conflito bipolar por grupos das mais diversas naturezas (Estados, grupos insurgentes, facções rebeldes, etc.), esses conflitos, que já não possuíam relevância estratégica para os países centrais, passaram a ser, por eles, descritos como guerras étnicas, tribais, bárbaras e irracionais.

Ao longo da própria década de 1990, contudo, diversos desses processos passaram a ser definidos, e o continente africano passou a apresentar cada vez mais sinais de estabilização – que, em geral, não eram percebidos. Por um lado, importantes atores continentais conseguiram suplantar algumas dificuldades do passado, seja através da superação de fases de instabilidade interna (Nigéria), de uma busca de “normalização” das relações com a comunidade internacional (Líbia) ou da consolidação de um papel de liderança regional (África do Sul), se firmando como atores fundamentais para a diplomacia continental. Por outro lado, o continente passou a apresentar um desempenho econômico relevante, com médias anuais de crescimento positivas – resultado direto da presença e interação crescentes de parceiros como a China e outros países emergentes.

Esses elementos, em conjunto com uma relativa diminuição da influência europeia – especialmente francesa – no continente ao longo dos anos 1990, possibilitaram aos países do continente se reorganizarem em bases mais autônomas, criando novas estruturas e práticas para lidar com os desafios sociopolíticos e de desenvolvimento enfrentados pela África. Nesse contexto, o começo do século XXI marcou um período de grande destaque para o continente africano. Além da consolidação de uma nova realidade política e econômica no continente – expressas pela criação da União Africana e da Nova Parceria para o Desenvolvimento Africano (NEPAD), respectivamente – a África teve a sua importância internacional significativamente aumentada, não só pelo aumento de seu poder de barganha junto aos compradores de seus importantes recursos naturais, mas também pela renovada importância geoestratégica do continente e por se apresentar como uma importante fronteira para o sistema capitalista.

Em grande medida, a renovada importância do continente no século XXI está diretamente ligada à intensificação das relações dos países africanos com potências emergentes – como China, Índia e Brasil -, tanto em termos quantitativos, quanto qualitativos, o que tem possibilitado a emergência de um novo paradigma socioeconômico, de projetos políticos, diplomáticos e sociais alternativos.

Esse processo, todavia, implicou a ocupação, pelas potências emergentes, de espaços que outrora eram ocupados pelas potências centrais, gerando assim uma reação por parte dessas – especialmente depois da crise mundial de 2008. Nesse contexto, teve início um processo de securitização do continente africano, com a transferência de uma série de questões da esfera política para o âmbito securitário, com a incorporação do continente na Guerra Global ao Terror dos EUA e com o estabelecimento de uma série de iniciativas militares das potências centrais no continente. Dessa forma, diversas dinâmicas locais em regiões de grande relevância geoestratégica – ligadas, em geral, a questões socioeconômicas e/ou de desenvolvimento – passaram a ser tratadas como ameaças securitárias, recebendo um tratamento essencialmente desconectado de suas causas – sendo estas, em geral, ignoradas.

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Fique Sabendo – O alvo inicial da securitização estadunidense na África foi o chifre africano, com o estabelecimento de uma base militar no Djibuti, em 2002. Por qual motivo isso se deu?

Guilherme Ziebell – O Chifre da África já era alvo da preocupação estadunidense com questões securitárias antes mesmo dos ataques de 11 de setembro de 2001. Nessa região, questões como terrorismo e pirataria já existiam, e eram tratadas como ameaças de grande relevância. Nesse contexto, por exemplo, o Sudão chegou a ser considerado, pelos EUA, como um “porto seguro” para terroristas, tendo sido bombardeado pela potência após os ataques terroristas às embaixadas estadunidenses em Nairóbi (Quênia) e em Dar es Salaam (Tanzânia), em 1998.

Nesse sentido, pode-se dizer que o processo de securitização da região teve início ainda na década de 1990. O que aconteceu a partir de 2001, assim, foi a inclusão da região em uma lógica mais ampla de securitização, com o estabelecimento pelos EUA de diversas iniciativas que intensificaram a presença e ingerência do país na região. O estabelecimento da base de Camp Lemmonier, no Djibuti, nesse sentido, se insere nessa lógica de intensificação da presença estadunidense na região, bem como naquela de garantir um acesso permanente ao continente – o que também se buscou através da criação do Comando dos Estados Unidos para a África (AFRICOM), em 2008. Nesse sentido, a importante posição geográfica do Djibuti no continente – no Estreito de Bab el Mandeb, e próximo tanto do Oriente Médio, quanto de importantes reservas petrolíferas africanas (Sudão do Sul) – também explica a instalação da base estadunidense na região. Por fim, também pode-se considerar a criação da base como uma forma de os EUA se contraporem à presença de outros atores no continente – notadamente a França e a Grã-Bretanha.

Fique Sabendo – Quais as consequências que a Guerra Global ao Terror deixou na África? De que forma ela contribuiu para a securitização do país?

Guilherme Ziebell – Diversas consequências podem ser elencadas. Além do aumento da presença e da ingerência de atores extracontinentais (como EUA, França e Grã-Bretanha) nos países africanos, destaca-se o reforço (e o surgimento) de diversos grupos tidos como terroristas (Boko Haram, AQIM e al Shabaab são apenas alguns exemplos), bem como a apropriação do discurso securitizador por diversos grupos políticos no continente, com grupos opositores sendo classificados (e tratados) como terroristas – em muitos casos com apoio declarado de atores extracontinentais. Nesse sentido, muito mais do que garantir a segurança e estabilidade do continente, o processo de securitização da África tem contribuído para aumentar a instabilidade e a violência no continente.

Fique Sabendo – De que forma a presença de países emergentes, principalmente a China, alterou o cenário estratégico da região?

Guilherme Ziebell – O continente africano possui uma população bastante expressiva (aproximadamente 1 bilhão de pessoas), e uma série de carências, que vão desde a garantia de acesso a produtos básicos – como alimentos, e produtos de higiene -, até a inexistência ou precariedade de infraestrutura – de saúde, transportes, etc.. O que antes era visto com indiferença (ou mesmo repúdio) – especialmente pelas potências centrais –, tem se apresentado, cada vez mais, como um importante espaço de expansão para as economias capitalistas, que têm na África um imenso mercado consumidor.

Além dos pontos já elencados (especialmente a ocupação, pelos emergentes, de espaços antes ocupados pelas potências centrais), cabe ressaltar que os investimentos realizados por esses países no continente africano – bem como o desenvolvimento de relações políticas, econômicas e diplomáticas mais estreitas – tem possibilitado aos africanos uma posição mais vantajosa nas negociações – sejam elas políticas ou econômicas – internacionais. Assim, tais países tem conseguido elevar o patamar de suas exigências, conseguindo melhores resultados nas negociações – e não se submetendo a anseios externos. Nesse sentido, os atores extracontinentais tem tido que buscar uma maior adequação aos interesses africanos, de forma a poder interagir com o continente africano. É justamente a maior presença dos emergentes, e a intensificação (especialmente qualitativa) das suas relações com os países africanos, com a ocupação de espaços que antes eram ocupados – sem concorrência – pelas potências centrais que altera o panorama estratégico na região.

Ainda assim, cabe ressaltar que apesar da intensificação das relações dos emergentes com os países africanos, estes ainda continuam ocupando um espaço pequeno – especialmente em ternos comerciais – em comparação com parceiros tradicionais da África, como França, EUA e Grã-Bretanha.

Fique Sabendo – Nesse processo de “renascimento da África” quais regiões merecem destaque e porquê?

Guilherme Ziebell – É difícil elencar alguma região que mereça destaque. O processo é efetivamente bastante amplo, e verificável em todo o continente. Exemplo disso é que entre os principais articuladores da transformação da Organização da Unidade Africana em União Africana, em 2002, há a Nigéria (Oeste), a Líbia (Norte) e a África do Sul (Sul). Além disso, a própria organização coloca os países em um patamar de igualdade, expressando a igual relevância de todos eles.

Fique Sabendo – O sentimento “antiamericano”, partilhado por uma parcela mais pobre da população, fez com que muitos civis passassem a fazer parte de grupos radicais islâmicos. Qual o reflexo que isso tem tido na África?

Guilherme Ziebell – É difícil dizer que o “sentimento antiamericano” seja a causa principal para o aumento de grupos radicais islâmicos no continente africano. Ainda que tal sentimento possa existir, não se pode afirmar que os grupos que atuam no continente africano tem os EUA como principal alvo. Nesse sentido, um dos grupos de maior destaque atualmente, o Boko Haram, tem em suas origens e motivações principalmente questões de desigualdade social internas à Nigéria, e não elementos ligados aos EUA – ainda que esses defendam que o grupo representa uma ameaça doméstica e internacional.

Nesse sentido, a defesa de que o “sentimento antiamericano” é o elemento motor dos grupos radicais é uma forma de legitimar o processo de securitização do continente, ignorando assim as demais causas de surgimento de tais grupos – como, por exemplo, a falta de representação política e a marginalização econômica de alguns setores –, e dando um tratamento essencialmente securitário para eles.

 

Fotos: Divulgação

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