Nos meandros dos documentos do processo
Por: Luis Fernando Assunção
Cecília Salles não é jornalista mas anda se aventurando nos meandros do processo produtivo no jornalismo. Graduada em Língua e Literatura inglesas pela PUC-SP, ela é mestre e doutora em Linguística Aplicada e Estudos de Línguas pela mesma instituição. Atualmente ela é professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da Universidade e coordenadora do Centro de Estudos de Crítica Genética. Autora dos livros Gesto inacabado: processo de criação artística (1998), Crítica Genética: uma (nova) introdução (2000) e Redes da criação: construção da obra de arte (2006) e do CD-Rom Gesto Inacabado: processo de criação artística (Lei de Incentivo a Cultura do Estado de São Paulo, 2000). Sua experiência na área de comunicação é por conta, principalmente, dos estudos nos temas processos de criação, semiótica, crítica genética e artes. Nessa entrevista concedida ao doutorando da Unisinos Luis Fernando Assunção, Salles falou um pouco de sua experiência na crítica genética, suas entradas na comunicação e no jornalismo. “O conceito de criação pode sim ser aplicado nos estudos do jornalismo e da comunicação”, sentencia a pesquisadora. Abaixo, a entrevista na íntegra:
Quando e de que forma a crítica genética entrou em seus estudos?
Cecília Salles - Quando fui fazer meu doutorado em 1986, como professora de Letras, e por interesse que eu tinha por redação de textos, queria saber como se escrevia. Fui atrás e encontrei o escritor Ignácio Loyola Brandão, que havia feito uma palestra aqui na PUC de São Paulo e havia trazido os seus diários para o livro “Não Verás País nenhum”. Perguntei a ele se me emprestaria o material para minha pesquisa de doutorado. Ele concordou. Passou um tempo, verifiquei que havia uma disciplina na USP que era sobre manuscritos de escritores. Fiz a disciplina e descobri a crítica genética. Me integrei e comecei a fazer parte desse grupo que estava discutindo o processo de criação dentro da literatura. Rapidamente percebi que o foco não era ensinar como escrever mas entender como se escreve.
A análise dos bastidores da criação demonstra que os processos produtivos e criativos estão em constante metamorfose. Que teorias podem dar suporte a esse movimento?
Cecília - Para entender o processo de criação, qualquer teoria é bem-vinda. A teoria é uma lente e ela vai permitir ver o processo sob determinada perspectiva. Num primeiro momento, no meu caso, o que me atraiu muito foi a semiótica peirciana, por ser uma teoria de movimento. Fui acoplando com o tempo as especificidades de cada objeto que estudado, como as teorias literárias, dialogando com a crítica literária, e depois fui ampliando. Então me defrontei com o conceito de rede, que deu uma sustentação interessante. Usei teorias da cultura, da complexidade, através do Morin, para pensar essas relações com a cultura. Mas isso não quer dizer que não tenha acessado outras teorias, que também ajudaram a enriquecer essa leitura de processo.
Os estudos genéticos apresentam uma característica multidisciplinar. Inicialmente decifravam manuscritos literários e hoje dão conta de outros campos, como dança, jornalismo, publicidade. Que contribuição a crítica genética pode dar a esses campos de conhecimento?
Cecília - A crítica genética é interdisciplinar em vários níveis. Esse que você apontou, dos objetos que passaram a ser estudados, é um deles. Outro aspecto da interdisciplinaridade é o anterior, das teorias que se conectam. E mais, na medida em que a gente está chegando nas questões gerais do processo de criação, pode-se ter um denominador comum para tratar de diferentes disciplinas. Temos o processo de criação como uma questão mais geral que pode ser vista nessas diversas áreas. E isso só passou a ter sentido quando se pensou nas questões gerais da criação. Se você só pensa no específico, não consegue tornar a questão interdisciplinar. Agora, o que a crítica genética oferece, há também vários níveis, camadas. Um é entender mais sobre o processo de criação. Outro aspecto é que qualquer leitura crítica, de um jornalista, de um publicitário, de um artista plástico, de um escritor, vai trazer novas luzes para esse fazer. Não posso dizer se isso é melhor ou pior, mas é outra abordagem a partir da chegada a esses objetos sob perspectiva diferente, que amplia esse olhar.
Há uma tendência entre os pesquisadores de não mais analisar apenas o processo produtivo ou criativo mas, além disso, manter uma interlocução com o autor. Você, em suas pesquisas, se enquadra nessa tendência?
Cecília – Vai depender do interesse do pesquisador. Se ele quiser tratar de arquivos que estejam em bibliotecas e não tiver acesso ao artista ou por ser de difícil acesso, não há problema nenhum. Nas minhas pesquisas coincidiu que eu tinha contato direto com a pessoa. Mas isso não quer dizer que o pesquisador deva ficar dependente dessa pessoa para realizar a pesquisa. Uma entrevista, alguma informação com o autor é mais um dado e isso só enriquece a pesquisa. O que não pode é se fixar, e isso eu percebo em meus orientandos. Eles, às vezes, querem encontrar na entrevista a chave interpretativa. E aí o trabalho não avança. Primeiro, é preciso ver o que o objeto exige, o que a documentação apresenta e aí sim recorrer à pessoa para solucionar algum problema. Então, esse contato pode ser improdutivo se impedir o avanço da pesquisa e isso às vezes acontece. Uma aluna, por exemplo, fez uma entrevista dentro do atelier do artista. E foi muito interessante. Nesse caso, em determinado momento da entrevista, o autor pode tirar algo que interessa, pegar uma obra, pegar um livro. Então isso ativa a rede. É quase uma conversa que ativa o processo.
Em seu livro “Redes de criação” você parte da necessidade de se pensar a criação como uma rede de conexões. Como isso ocorre na perspectiva do processo de construção de uma obra?
Cecília - Todas as minhas pesquisas partiram da documentação, dos artistas, de informações que obtive desses objetos de pesquisa. Então, fiz um caminho anterior, verificando interações que eram dadas, até nomear isso como rede. Primeiro, do ponto de vista da metodologia da pesquisa, você começa a estabelecer nexos que estão implícitos no material. Então, como num espelho, estabelecemos nexos, reativando essa rede. Algum tempo depois é que eu fui nomear como rede. Mas na verdade essa chave metodológica que é estabelecer esses nexos já estava preparando esse conceito de rede. Havia associações, havia interações, as palavras estavam ali. As questões já estavam sendo analisadas e praticamente a rede estava preparada. Eu só não tinha ainda encontrado uma boa definição.
O termo criação é refutado nos estudos de comunicação, especialmente porque o tema remete a uma visão romântica do artista, que ele concebe suas obras a partir de uma inspiração divina. Como lidar com essa resistência?
Cecília - Abrir mão desse conceito não adianta, porque vamos achar um sinônimo. Podemos falar também de processo de produção, e não há nenhum problema nisso. Construção de uma notícia, produção de uma notícia, etc. Eu não abri mão do termo criação, embora durante alguns anos usamos esse subterfúgio, quando eram alunos que tratavam de processos jornalísticos, por exemplo. Mas que conceito de criação é esse que a gente está lidando? Todas essas camadas que estão sendo entendidas ao longo dessas pesquisas negam o conceito de criação que não vem do nada, de genialidade, de pura inspiração. Tudo o que a gente vem mostrando é que existem interações, uma rede complexa por baixo de todos os processos, independente dos propósitos. Isso está muito no conceito peirciano de abdução, de hipótese, que é uma conexão inesperada. Então, cai por terra esse conceito de que não vem do nada. Mais ainda com toda a documentação que a gente tem. Porque a documentação nada mais é do que a materialidade dessa história e da impossibilidade de se falar dessa criação ligada à pura inspiração. Mais fácil do que abandonar a palavra criação é levar esse conceito de criação para dentro do ambiente de comunicação. E dizer sim, estamos falando de algo que tem história, que tem camadas, que é trabalho, que tem conexões e que não é a ilusão da inspiração divina ou que vem do nada.
De que forma a tecnologia pode auxiliar nos estudos de processos?
Cecília - O que estamos percebendo é que sob o ponto de vista de registro de processos a tecnologia amplia, expande os materiais da documentação. Não podemos esquecer que esse estudo é o que temos em mãos e o que oferece sobre o processo de criação e não ficar em busca do que a gente não tem em mãos, ficando assim sempre na angústia do perdido. Nós nunca vamos ter acesso a tudo e ao mesmo tempo as novas tecnologias oferecem novas possibilidades. Etapas que você poderia ter perdido no meio do caminho você reencontra. Há mais facilidade de registro. Então há uma ampliação desses registros e ao mesmo tempo já estamos estudando processos que ocorrem exclusivamente nos meios digitais. São arquivos digitais, bancos de dados, sites pesquisados. Os procedimentos de desenvolvimento do pensamento são os mesmos ontem e hoje. Claro que a materialidade é outra. E se a gente perde coisas no digital também se perdia no analógico. Então, sem essa ilusão da totalidade, de que vamos ter acesso a tudo nem antes nem hoje. Temos acesso a muitas coisas, mas interessa o que esse material viabiliza, o que oferece sobre o processo de criação.



