Seminário Estudo Global em Mídia e Religião
Stewart Hoover
11 a 15 de março de 2013
1. A relevância do tema conforme Stewart Hoover
Ao entrarmos na segunda década do novo século, a religião continua a crescer como uma força na política e na sociedade. Este fato se dá contra ao pensamento que esperava que a secularização, de maneira uniforme, enfraquecesse a religião, particularmente no Ocidente desenvolvido. Ao contrário, as forças que levaram à secularização têm atuado na religião de uma forma diferente da prevista. A religião tem persistido em formas evoluídas e adaptadas. Um dos agentes destas formas evoluídas da religião e do “religioso” são as formas evoluídas das mídias e da mediação das religiões, das espiritualidades e da variedade de impulsos e aspirações que são culturalmente e socialmente relacionadas à religião.
Afirmar isto, obviamente, requer amplas definições de “religião” e de “mídia” que pareceriam difusas e efêmeras não fossem pelos registros observáveis da prática social e cultural que hoje evoca e implementa formas mediadas do “religioso” em relação a projetos tão diversos como identidade política no Ocidente e nos movimentos de base por mudança social no Oriente Médio. Nossas definições de religião e de mídia têm tido que mudar e que se adaptar.
Esperava-se que estudos nos campos da religião e das mídias tivessem trazido contínua atenção à interação entre eles. Afinal, novas formas de mediação interagem com a religião, com culturas religiosas, e com a autoridade religiosa ao longo da história, pelo menos na relação entre a revolução de Gutenberg e a Reforma Protestante. Nos Estados Unidos do século XX algumas das mais importantes mudanças religiosas, do nascimento do evangelicalismo político à emergência do pentecostalismo e das novas formas religiosas esotéricas do chamado “Movimento Nova Era”, poderiam ser vistas como tendo importantes inflexões das, ou origens nas, mídias contemporânea. O século XXI nasceu com exemplos ainda mais óbvios (e portentosos) da interação entre as mudanças nas mídias e as mudanças religiosas. Os eventos de 11 de setembro, os atentados a bomba em Bali e os ataques terroristas em Londres e Madri não poderiam ser plenamente compreendidos sem as referências das interações entre mídia e religião. Semelhantemente, amplas e significativas mudanças no mundo islâmico, tais como o crescimento de culturas moderadas e jovens articuladas dentro e por meio de fluxos e redes de mídias emergentes, surgiram a partir dos eventos de 11 de setembro em rumos inteiramente novos por meio de atividades de atores inteiramente novos. A autoridade religiosa no Cristianismo, no Islam e, de fato, em todas as religiões do mundo, está cada vez mais em questão numa era em que as formas de expressão religiosas populares e mercantilizadas podem circular de acordo com sua própria lógica, bem fora do controle das origens clericais e acadêmicas.
Dadas as significativas implicações de tais tendências, é surpreendente que tanto o discurso público e a pesquisa acadêmica tendam a ignorar a interação entre mídia e religião. Isto é verdade tanto nos campos dos estudos das mídias ou da comunicação de massa quanto no campo dos estudos da religião. Como jovem estudante de graduação, desejando perseguir uma pesquisa científica sobre a mediação da religião, descobri, frustrado, poucos recursos tanto em literatura quanto em tutoria acadêmica disponíveis para o meu projeto. Nenhum campo tinha muito a dizer sobre o outro, e o que cada um dizia tendia a essencializar ou instrumentalizar o outro. Para estudiosos da religião, mídia e mediação eram vistas principalmente em termos de sua expressão da religião formal ou no enquadramento jornalístico da religião. Estudiosos das mídias tendem a aceitar de forma inquestionável a hipótese da secularização na análise social e cultural das mídias. Isto significou que a religião era pensada como uma dimensão residual ou superficial da cultura contemporânea, algo que era primeiramente importante por suas funções ideológicas. A noção de que mídia e religião possam de alguma forma interagir uma com a outra ou de que novas formas de religião e novas implicações da autoridade religiosa possam ser desenvolvidas como resultado da mediação da mídia moderna, eletrônica (e agora digital e social) é obscurecida por outras prioridades acadêmicas.
Isto é ainda mais surpreendente porque, quando um discurso acadêmico começa a construir um momentum, a pesquisa histórica (em particular) lembra-nos até que ponto a mudança na religião como resultado de novas formas de mediação não é nada nova. Por exemplo, uma das mais significativas dimensões do evangelismo de fronteira wesleyano e campbelliano (e de fato, mais tarde, o evangelismo urbano) deram-se na sua mediação nas novas formas de mídia (livros, panfletos, folhetos) que tornaram estes movimentos possíveis. E, claro, isto não diz respeito somente às mídias, mas também à forma como essas mídias se tornaram possíveis e lógicas (de algumas formas unicamente americanas) pelas formas de religião que enfatizaram o individualismo, a autonomia e a escolha, e o jeito como estas sensibilidades criaram mercados inteiramente novos para a mediação religiosa.
Na medida em que há um estudo emergente sobre a interseção entre mídia e religião hoje, ele é resultado de várias forças. Primeiro, a evidência da persistência da religião e sua crescente importância nas questões nacionais e globais. Segundo, o surgimento de novas gerações de acadêmicos mais jovens para quem as velhas ideias infundidas sobre secularização não fazem mais sentido. Terceiro, o trabalho de um grupo de colegas mais velhos, eu mesmo incluído, que tem se comprometido a desenvolver esta nova direção. Este último grupo é formado a partir de uma variedade de campos que se encontraram, em meados dos anos 90, convergindo nestas questões. Estes campos incluem antropologia, onde a pesquisa de campo foi descrevendo formas religiosas emergentes e desenvolvidas enraizadas na sua localização e na tradição, mas cada vez mais moduladas por mídias contemporâneas; cultura estética e visual, que estava repensando hierarquias tradicionais de valor estético, abrindo para a consideração da prática popular visual e sua geração de significados e associações religiosas; estudos da religião, no qual alguns estudiosos estavam abandonando os paradigmas formalistas e essencialistas do “religioso” em busca de estudos de prática vivida; e os estudos de mídia e cultura de massa que estava passando por uma “virada culturalista” fora dos paradigmas instrumentalistas de mediação em busca de estudos e interpretações dos significados culturais das práticas de mídia.
O desenvolvimento de um discurso acadêmico em mídia e religião permanece um trabalho em desenvolvimento. Literaturas no campo continuam esparsas e atenuadas quando vistas à luz do curso do desenvolvimento histórico no século XX, sobre o qual se poderia esperar responder. Estas literaturas também continuam incompletas na compreensão e na construção de teoria sobre os contextos transnacionais e transculturais destes desenvolvimentos. Enquanto o fascinante trabalho antropológico comparativo reorienta substancialmente estas questões que levantamos, muito fica por ser feito para explicar as formas complexas e sobrepostas com as quais o local, o regional e o global interagem nestas mediações. Frequentemente, visões transnacionais permanecem apenas comparativas. O fato das mídias, no entanto, torna isto incompleto. As mídias não são instrumentos herméticos que operam independentemente em cada contexto, elas são um complexo interconectado de tecnologia, economia e prática. Elas fazem com o que o que é feito num contexto seja imediatamente visível em outro. Elas permitem, até mesmo encorajam, fluxos transnacionais de identidade, significado e influência. Elas apresentam e reforçam convenções de gênero e prática que se tornam decisivas. Elas são inventários de possibilidade multivalentes e complexos, das mídias eletrônicas sofisticadas por um lado, à mídia “tradicional”, simples, artesanal, de outro. E, na era digital elas operam em um amplo contexto onde qualquer destas formas de mediação pode existir junto a outra.
Tudo isto demanda um estudo crítico que possa desfazer visões recebidas e tidas como verdadeiras. Vimos durante um longo tempo que formas de tradicionais de pensar sobre mídia e comunicação como “causas” instrumentais é uma incompreensão da história. E ainda, com cada nova mídia, o discurso parece cair novamente numa assunção fácil de que a questão central é o que a mídia “causa” acontecer. Debates dessas mídias no Irã, no Egito, na Tunísia e em todo o Oriente Médio, notaram tanto as extensões quanto os limites desses efeitos e influências. Essas mídias não “causaram” estes eventos, mas elas os tornaram eventos muito diferentes do que seriam numa era das mídias diferente. A força global emergente do neopentecostalismo não pode ser dita como “causada” pelo seu uso das mídias modernas, mas ele não seria a força que é e não teria os potenciais que tem sem as mídias modernas.
A visita ao Brasil fará parte do projeto do ano sabático 2012-2013 do professor visitante. Pretende-se realizar isto por meio de imersões em quatro diferentes localidades onde o proponente espera se envolver em momentos críticos do desenvolvimento do ensino e da pesquisa e dos recursos institucionais para apoiar ensino e pesquisa nesta área. Cada um dos locais é um contexto onde o pesquisador já esteve envolvido no passado e onde já estabeleceu relações de orientação ou institucionais. Cada um está num ponto onde tal intervenção pode ser crítica para a instanciação do estudo em mídia e religião. Cada um é localizado num contexto de fermentação importante na mediação da religião, e onde é, portanto, possível vislumbrar o desenvolvimento de um estudo importante, frutífero e provocativo. Estes são lugares onde docentes e estudantes da graduação e da pós-graduação serão capazes de realizar rico e produtivo trabalho de campo e por meio dele trazer descobertas e aprendizados importantes para o estudo global.
A imersão nas quatro regiões do mundo vai permitir ao proponente alguma margem de reflexão sobre o desenvolvimento de um registro do estudo no campo em relação a cada contexto, e se engajar em conversações e colaborações com especialistas regionais.
Os locais de imersão são: A Universidade de Aarhus, Dinamarca, Instituto de Estética e Comunicação; o Trinity Seminary e a Universidade de Gana, Legon; a Universidade Metodista de São Paulo e a Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Brasil; e o Instituto de Tecnologia Royal Melbourne, na Austrália.
O Brasil foi um país definido como parte deste roteiro de ensino e pesquisa por dois motivos: (1) é um contexto em fermentação no tocante à relação mídia-religião: é marcado por uma pluralidade religiosa, especialmente cristã, com o notável crescimento do segmento evangélico e de sua presença nas mídias e na política; (2) foi o local de realização da 6ª Conferência em Mídia, Religião e Cultura, cujo comitê organizador foi presidido pelo proponente. A Conferência foi sediada na Universidade Metodista de São Paulo em agosto de 2008, o que proporcionou ao proponente uma série de contatos naquela instituição e no País.
2. Funcionamento
O seminário terá tradução simultânea. O seminário será realizado com aulas expositivas, seguida de tempo para comentários dos professores do PPGCC-Unisinos, Pedro Gilberto Gomes (coordenador), Antonio Fausto Neto e Jairo Ferreira, que devem acompanhar os seminários e perguntas dos alunos, em interlocução com o professor ministrante.
3. Cronograma
Período: 11 a 15 de março. Horário: 9 horas às 12h30min. Local: Sala Conecta.
4. Avaliação
Os estudantes matriculados devem apresentar texto final, na forma de artigo, com até 15 páginas, tomando como núcleo e ponto de partida determinados aspectos de seu próprio problema de pesquisa – e observar (a) que aspectos, neste ou naquele texto debatido, podem contribuir a suas reflexões dentro do eixo Midiatização, técnica e tecnologia.
5. Sobre o professor visitante
Stewart Hoover é professor na Faculdade de Jornalismo e Comunicação de Massa, University of Colorado at Boulder, onde dirige o Centro para Mídia, Religião e Cultura. É presidente da International Society for Media, Religion, and Culture.
Obras mais recentes: Co-Editor, with Monica Emerich. Media, Spiritualities, and Social Change. London: Continuum Press, 2010. Co-Editor, with Nadia Kaneva, Fundamentalisms and the Media. London: Continuum Press, 2008.Religion in the Media Age. London: Routledge, 2006. Coordenador de projetos internacionais sobre manifestações religiosas Co-Author, with Lynn Schofield Clark, Diane F. Alters, Joseph G. Champ and Lee Hood, Media, Home and Family. New York: Routledge, 2004. Co-Editor, with Lynn Schofield Clark, Practicing Religion in the Age of the Media: Explorations in Media, Religion, and Culture. New York: Columbia University Press, 2002. Religion in the News: Faith and Journalism in American Public Discourse. London: Sage, 1998.
Professor-visitante na African University College of Communications and Trinity Theological Seminary, Accra, Gana (2012); London School of Economics and Political Science, Inglaterra (2005); University of Edinburgh,Escócia (2001); Swedish Collegium for Advanced Study in the Social Sciences, University of Uppsala, Suécia (1996); University of Uppsala, Suécia (1997); Diretor do Temple London Program, Temple University (1998).
Mais informações: poscom@unisinos.br