televisão e convergência digital : Blog Pós-Graduação MBA e Especialização – Unisinos
àsmarço - 7 - 2012 0 Comentário

O capitalismo sustenta-se no fomento incessante ao consumismo, acelerando a acumulação, por uma parte da sociedade. Trata-se de um modelo em que a necessidade de consumo é explorada de forma sempre crescente, a fim de manter o melhor desempenho de seus agentes constituintes, com o máximo de retorno, desta forma funcionando o todo social. Os esforços para estimular uma sociedade movida pelo consumo crescem de maneira gradativa, com publicitários, especialistas em marketing, executivos em geral e empresários ocupando-se em trazer soluções de consumo para a nova massa que surge, ao mesmo tempo em que cria atrativos para os segmentos já integrados, provocando a inovação permanente.

Para tanto, as tecnologias de informação e comunicação (TICs) são grandes aliadas. Elas possibilitam o desenvolvimento de produtos cada vez mais bem elaborados e portadores de funções facilitadoras, na sequência gerando novas necessidades e must buy. O celular e a internet são exemplos já incorporados ao cotidiano e ao modo de vida dos cidadãos, agindo, inclusive, como agentes transformadores das relações sócio-econômico-culturais. Explora-se, com o estímulo a novas necessidades, o desejo de se estar dentro do circuito do mais novo, melhor e mais funcional dos mundos, incentivando a constante renovação dos dispositivos tecnológicos. É o ciclo do consumo sem fim, onde a obsolescência forçada é fundamental.

A tecnologia tem um papel essencial na facilitação do consumo, estimulando a compra impulsiva e desnecessária, desta forma beneficiando corporações e dando força à orientação econômica vigente. Nesse quadro inserem-se as lojas online, acessíveis sem sair de casa, através de mecanismos que permitem o pagamento por esses produtos de forma rápida e segura, com alguns clicks de mouse e via cartão de crédito (na maioria das vezes com juros elevados, pela não quitação integral do débito, gerando endividamento elevado e contínuo). Dentro de algum tempo, a TV digital trará a possibilidade de comprar produtos de comerciais com o próprio controle remoto, pois tudo estará interligado, se definido o canal de retorno.

Vídeo e bloqueio
Circula na internet o vídeo We Are the Future (Nós Somos o Futuro), em que adolescentes na faixa de 13 anos argumentam que os profissionais de marketing devem rever a maneira de fazer comunicação. A justificativa é que a massa consumista está crescendo de tal modo que o futuro das marcas será por ela determinada. Comentam sobre os formadores de opinião, salientando ser necessário que as empresas paguem esses consumidores alfas, pois sua atitude influenciará diretamente nos padrões de compra generalizado, o que reforça a ideia de que todos cada vez mais trabalham pelas marcas, gratuitamente, como se isto fosse inclusão.

Sendo o consumo a base da economia capitalista, de produção e demanda, de compra e venda, os profissionais responsáveis pela criação de uma condição favorável à aceleração da circulação estão cada vez mais atentos, ousados e valorizados. Suas investidas criam situações, não raro, inimagináveis, sempre procurando favorecer a circulação de mercadoria e capital. A pergunta que fica no ar é até quando tudo isso será sustentável. Chegará o dia em que o próprio ser humano será colocado para comercialização como um bem de consumo? Ou esse dia já chegou, sem que nem fosse percebido? Tudo isso denota a existência de um sistema que, longe de ser auto-sustentável, traz o enigma de sua superação na sua própria concepção.

*Artigo produzido em parceria com a aluna Jéssica M. G. Finger

Valério Brittos, professor da Especialização Unisinos.<br />
Doutor em Comunicação. Atualmente é professor titular do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos, vice-presidente da Unión Latína de Economía Política de la Información, la Comunicación y la Cultura (ULEPICC-Federação), além de participar de outros projetos.

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àsfevereiro - 29 - 2012 0 Comentário

A ficção televisiva apresenta enorme receptividade junto às audiências, grande potencial entre os anunciantes e ampla possibilidade de comercialização internacional. Seu custo elevado, no entanto, tem impedido a realização de produtos unitários: torna-se mais vantajoso investir em telenovelas ou minisséries, que cada vez contam com mais capítulos, diluindo seus custos. Em decorrência disso, o telefilme tem sido um formato pouco explorado. Por definição, trata-se de um produto audiovisual ficcional, com duração variável entre 50 e 80 minutos. No que tange a sua distribuição, segue caminho inverso aos tradicionais filmes comerciais: sua primeira exibição ocorre na televisão, eventualmente migrando para as salas de cinema, especialmente as dedicadas aos chamados circuitos alternativos.

No caso brasileiro, a produção de telefilmes é pífia. Em contrapartida, produções norte-americanas e canadenses são amplamente exploradas em sessões de cinema com grande audiência, como a Supercine, da Globo. Em um passado recente, o SBT chegou até mesmo a apresentar a sessão Made for TV, exibida em suas madrugadas, e dedicada aos títulos produzidos em regime de baixo custo. Apesar de seu elevado potencial comercial, os telefilmes estrangeiros nem sempre contam com nomes conhecidos do cinema mundial. Mas há exceções, como o norte-americano Prayers for Bobby (2009), que contou com a atuação de Sigourney Weaver, bastante conhecida dos blockbusters, e que chegou a ser vencedor do Golden Globe Awards (Globo de Ouro, em português), mesmo disputando com produtos audiovisuais de diversos formatos.

Telefilmes brasileiros
Em dezembro de 2011, época dos tradicionais especiais de final de ano, as emissoras brasileiras aproveitaram para programar os telefilmes inéditos que estavam em seu catálogo. A realização dos títulos contou com a vinculação de produtoras independentes, cooperação necessária para captação de recursos federais via projetos de incentivo à produção audiovisual. No Especial Record de Literatura, a emissora homônima exibiu O Madeireiro (26/12), uma co-produção com a Contém Conteúdo; e O Menino Grapiúna (27/12), co-produzida com a Bossa Nova Filmes. Na sequência (29/12), a Globo programou Homens de Bem, produzida em parceria com a Casa de Cinema de Porto Alegre. Os horários de exibição, sempre após as 23 horas, somados ao padrão tecno-estético diferenciado, não resultou maior audiência. O mais curioso foi ver Rodrigo Santoro, cuja dedicação atual visa participações em películas norte-americanas, novamente na tela da Globo; e Petrônio Gontijo, atualmente contratado da Globo, mas que durante a gravação de O Madeireiro ainda era contratado da Record.

Cabe ressaltar que a Globo tem sido a que mais investe na experimentação de formatos, ainda que sem tradição em telefilmes, que, na verdade, não estão (ainda) incorporados ao fazer audiovisual nacional. Os atuais projetos da emissora contemplam desde minisséries de quatro, 16 e 30 episódios a séries semanais com 30 minutos de duração (que se tornam expansíveis no vídeo, mediante a inserção de intervalos comerciais). O formato unitário, como é o caso dos telefilmes, tem contemplado histórias cuja trama pode ser mais bem desenvolvida em um curto espaço de tempo, e que, devido a sua essência narrativa, dificilmente funcionariam no núcleo de uma telenovela.

Iniciativa e fomento
As recentes produções de telefilmes têm sido beneficiadas por recursos federais e estatais. No âmbito estadual, a Secretaria da Cultura de São Paulo selecionou, em 2011, através de seu Programa de Ação Cultural, 10 projetos que contemplavam a criação e o desenvolvimento de um roteiro inédito para produção de telefilmes, oferecendo recurso de R$ 40 mil para cada contemplado. Desta gama, quatro projetos foram contemplados para produção, sendo beneficiados com R$ 600 mil cada. Os contemplados na segunda etapa ainda têm direito a diárias de câmera digital e de estúdio, equipamento de iluminação e suporte técnico. Os telefilmes têm sua exibição assegurada na programação da TV Cultura.

Neste caso específico, a emissora fica com 60% da receita advinda dos direitos de comercialização do telefilme, em todas e quaisquer mídias, pelo período de 10 anos. Os 40% restantes da receita advinda dos direitos de comercialização são de propriedade de seus realizadores. Ainda, possui cessão exclusiva dos direitos de exibição do telefilme, em todas as mídias, durante o período de um ano. Passado este período, a TV Cultura segue com o direito de exibição permanente, porém sem exclusividade.

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Valério Brittos, professor da Especialização Unisinos.<br />
Doutor em Comunicação. Atualmente é professor titular do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos, vice-presidente da Unión Latína de Economía Política de la Información, la Comunicación y la Cultura (ULEPICC-Federação), além de participar de outros projetos.

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àsfevereiro - 22 - 2012 0 Comentário

Apresenta-se aqui uma proposta de mudança estrutural da TV de massa no Brasil. O esboço de proposta aqui apresentado, que tem sido defendido pelos autores em diferentes fóruns e situações, é muito simples na sua formulação, embora envolva problemas de difícil solução no que se refere à construção social de uma nova institucionalidade, que só será possível a partir de uma mudança efetiva na balança de poder entre os diferentes agentes envolvidos na regulação das comunicações.

O Brasil conta, desde o início da década de 70 do século XX, com um sistema público estatal de televisão educativa, atingindo praticamente todo o território nacional, constituído por emissoras ligadas, na sua maioria, aos governos estaduais – com algumas poucas ligadas às universidades federais públicas presentes no respectivo estado da Federação, como é o caso no da TV Educativa de Pernambuco. Trata-se de uma criação do regime militar instaurado no Brasil a partir de 1964, que optou por manter o sistema comercial privado, apoiando fortemente a sua concentração em torno da Rede Globo de Televisão, mas não abriu mão do controle de uma rede pública estatal.

Um princípio que pode ser tomado como consensual é aquele constitucional da complementaridade entre os sistemas público, privado e estatal, mesmo que as definições de cada um desses conceitos ainda não existam, nos termos da lei, sendo a sua definição, parte do problema, que não será tratada aqui. Em todo caso, pode-se partir dos seguintes princípios:

a) O sistema privado não se pode eximir das obrigações de serviço público, visto tratar-se de concessão pública, exigindo, no caso dos países plenamente democráticos, contratos de concessão, cadernos de encargos e controle público sobre os conteúdos, de modo a evitar as distorções conhecidas no mercado brasileiro: censura privada e manipulação;

b) O sistema público estatal deve submeter-se também a formas democráticas de controle público, evitando concentração de poder e uso político dos meios;

c) O sistema público não estatal (ou privado sem fins lucrativos, se se preferir, como é o caso da TV comunitária, ou da universitária conhecida no Brasil), assim como o estatal, deve atuar excluído da lógica da publicidade comercial, salvo as exceções conhecidas de patrocínio cultural, conforme regulamentação específica.

Tendo em vista que as necessidades do sistema público não estatal, não lucrativo, devem ser preenchidas, de alguma forma, pelo Estado, não diferindo, em essência, daquelas do público estatal (financiamento e qualificação técnica), pode-se pensar num modelo constituído, à moda européia, no seu conjunto por dois setores (público e comercial). Do ponto de vista da complementaridade, à produção regional, independente e plural, deve-se garantir direito de acesso à antena, tanto no sistema privado, quanto no público.

Assim, pode-se pensar, como na Europa, em um sistema público constituído por três redes nacionais, a saber:

a) Um primeiro canal centralizado, à maneira do que pretende ser a TV Brasil, com capacidade de concorrer pela liderança de audiência em nível nacional. Um canal deste tipo deveria propor-se a conquistar uma participação de 30% da audiência nacional (share);

b) Um segundo canal mais segmentado – que poderia ser definido em nível estadual, como as atuais emissoras educativas, mas com o mesmo elevado grau de autonomia financeira e de gestão pensada para a primeira TV e dispondo de mecanismos semelhantes de controle público. Teria por objetivo algo em torno de 15% de share diário, podendo disputar espaço com a primeira rede em determinados momentos, através de uma programação mais vinculada à cultura local;

c) O terceiro canal totalmente descentralizado, com uma grade estruturada à base de produção local independente, muito próximo do que deveria ser uma TV comunitária. A coordenação da grade se daria, de um modo geral, em nível local, mas o conjunto das emissoras desse sistema se articularia em rede nacional, em determinados horários, de modo a permitir que toda a produção local pudesse atingir, em algum momento, a audiência nacional, como ocorre tradicionalmente com a televisão pública alemã, por exemplo. Em média poder-se-ia supor um share de 5%.

Evidentemente, tal proposta é para a televisão aberta. A TV pública também deve participar de alguma forma da televisão fechada, mas isso não será tão importante, no caso da consecução de uma proposta deste matiz. Se somados os índices propostos como objetivo para cada uma das três redes, tem-se participação em precisamente metade da audiência nacional, o que garante complementaridade e equilíbrio ao conjunto do sistema. Claro que, além dessas, permaneceriam, e com sinal aberto, as emissoras do Executivo, do Legislativo e do Judiciário, com a incumbência explícita de transmitir as sessões do plenário e das comissões das respectivas casas, por exemplo, cumprindo sempre a obrigação de publicidade, sem preocupação com índices de audiência. Também o Canal Brasil, criado para atender à exigência legal de divulgação do cinema brasileiro, deveria ser distribuído em aberto, assim como outros canais de utilidade pública (como de t-government e educação à distância – EAD) e de serviço eventual.

Na medida em que permite a ampliação do espectro, a TV digital serve à proposta aqui esboçada. Além disso, nas negociações em torno da reestruturação do sistema atual, visivelmente inadequado, seja do ponto de vista democrático, da competitividade sistêmica do país na área ou da preservação da diversidade cultural e da cultura brasileira, será preciso discutir o interesse nacional em manter determinado tipo de empresa atualmente em funcionamento, que prima pelo oferecimento de todo tipo de conteúdo religioso, tele-compras e programação de qualidade duvidosa.

Por certo, não cabe aqui julgar a programação das emissoras, mas é inegável que a sociedade brasileira deve dispor de mecanismos democráticos para tal, já que a própria homogeneidade da programação, que impera mesmo nas redes comerciais mais conhecidas, dadas as limitações do espectro – que se reproduzirão, aliás, em grande medida, na televisão digital, dada a solução a que se chegou, no Brasil, de deixar a decisão a respeito de sua utilização basicamente nas mãos dos atuais radiodifusores – representa uma censura estrutural a qualquer conteúdo divergente daqueles definidos pelos setores hegemônicos da comunicação social, que ainda detém o monopólio da mediação social no país.

*Artigo produzido em parceria com o professor César Ricardo Siqueira Bolaño

Valério Brittos, professor da Especialização Unisinos.<br />
Doutor em Comunicação. Atualmente é professor titular do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos, vice-presidente da Unión Latína de Economía Política de la Información, la Comunicación y la Cultura (ULEPICC-Federação), além de participar de outros projetos.

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àsfevereiro - 14 - 2012 0 Comentário

A Especialização em Televisão e Convergência Digital está promovendo a aula aberta Desenvolvendo Aplicativos para a TV Digital. A oficina ocorre no dia 2/3, das 19h às 22h, na Unisinos CIEE, em Porto Alegre, e terá como ministrante o Prof. Ms. Alan César Angeluci, que atua na USP.

Veja mais informações e como se inscrever.

àsagosto - 31 - 2011 0 Comentário

No nascente mercado de streaming de audiovisual na internet, é especialmente útil observar com atenção negócios como a Apple TV e o Youtube. As atuações de empresas extremamente diferentes, mas que, ainda assim, atuam de forma complementar, num mercado de comunicação em permanente reformulação, surgem como um tema de intensa relevância. Some-se a isso a forma pela qual mecanismos tradicionais de negociação, como os direitos de propriedade intelectual e sua contraditória contribuição para renovar o poder de players tradicionais no mercado audiovisual, e tem-se um cenário instigante.

De fato, o Youtube possui extrema importância na história da convergência entre internet e televisão. Afinal, ao demonstrar de que modo é possível aproveitar os benefícios de assistir audiovisual através da rede, esse serviço foi principal fator de aprendizado do público nesta tarefa. O curioso é que o YouTube pode ser tudo, menos um sucesso comercial. Apesar de seus mais de um bilhão de acessos diários e da participação notável no cenário do audiovisual em rede, o YouTube não é uma empresa lucrativa, demonstrando que êxitos de faturamento e público podem não caminhar juntos.

Menos conhecida e mais segmentada, a Apple TV surgiu em 2007, com a intenção não de competir diretamente com o Youtube, mas de ser uma fonte própria de rendimentos a partir de serviços de outras firmas, gerando lucro para a Apple. A histórica corporação de hardware apostava num set-top box que permitisse acesso privilegiado ao iTunes Store, formando uma espécie de rede entre ambos os serviços. Na realidade, o serviço opera como uma locadora online, que aluga instantaneamente, via download, seriados e filmes por preços bastante convidativos (cerca de US$ 0,99 cada). Assim, embora não seja encarada como um produto de propriedades revolucionárias no cenário da convergência da internet com a televisão, a Apple TV é um sucesso financeiro.

O YouTube hospeda e veicula qualquer tipo de vídeo, enquanto a Apple TV distribui apenas audiovisuais que já possuem um público definido (filmes lançados no cinema e seriados transmitidos em grandes canais televisivos). Suas diferenças são o ponto principal. Os novos negócios de streaming amador têm a obrigação de afirmar a relevância de seu conteúdo. De outro lado, os negócios de streaming de audiovisual premium possuem conteúdo relevante por si só. O principal problema do segundo grupo é recorrer a acordos que permitam utilizar material já conhecido pelo público, na verdade mais simples e convencional.

Aqui uma contradição: se um empreendimento de internet não agrega conteúdos televisuais próximos do imaginário do público, terá dificuldade de obter sucesso financeiro, no curto prazo. Se, ao contrário, a iniciativa aposta no previamente experimentado, deixa de participar de um processo de inovação que, em algum momento, deverá trazer resultados positivos econômicos, não obstante no plano do fazer comunicação desde o início traga bons dividendos. Velhos padrões ainda possuem uma intensa capacidade de sobrevivência, mas a lógica da PluriTV – esta televisão que está em todos os lugares, com maior ou menor protagonismo – prevê que, a seu modo, cada modalidade televisiva acabe construindo seu próprio modelo de financiamento, podendo haver mais de um até em uma mesma plataforma.

Tal constatação afirma-se através de – outra – velha estratégia de distribuição de conteúdo. A distribuição de um audiovisual possui etapas, formando as janelas de exibição. Um filme é lançado no cinema, posteriormente distribuem-no em DVD; depois, licenciam-no para canais de TV por assinatura e, finalmente, ele é liberado para a televisão aberta. Para o streaming, a questão tem sido delimitar o lugar de tal projeto neste antigo circuito. Serviços como a Apple TV surgem como uma alternativa, comprometendo possivelmente as próximas etapas. Existe um risco de ele canibalizar o negócio de TV paga, roubando espectadores e tornando-se uma espécie de rival.

A interação eficiente entre diversos elementos é extremamente proveitosa para negócios de comunicação concentrados. Num processo de sinergia bem articulada, a transição de uma etapa de veiculação para outra dá-se sem problemas. Pode-se poupar esforços de marketing, uma vez que o grande público já conheça o produto. A digitalização – palavra chave na convergência entre televisão e internet – permite uma reapropriação mais rápida e barata, tornando um programa mais relevante por mais tempo. Em todo este ciclo, a negociação de direitos autorais torna-se paradoxalmente importante para estes benefícios serem obtidos. Sem ela, não é possível o processo de sinergia.

A partir deste debate, é possível inferir que existe a possibilidade de visualizar os negócios de streaming como um experimento a ser internalizado por grandes corporações. Considerando a extensa consolidação das últimas décadas, vê-se que isso é extremamente viável já que, a partir daí, os negócios de streaming deixam de ser um rival dos serviços de televisão por assinatura, passando a ser um aliado. Isto conferiria ainda mais poder às grandes corporações, obtido através exatamente de velhas estratégias de controle de conteúdo.

*Artigo produzido em parceria com o bolsista Bruno Bottega

Valério Brittos, professor da Especialização Unisinos. Doutor em Comunicação. Atualmente é professor titular do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos, vice-presidente da Unión Latína de Economía Política de la Información, la Comunicación y la Cultura (ULEPICC-Federação), além de participar de outros projetos.


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