artigo : Blog Pós-Graduação MBA e Especialização – Unisinos
àsagosto - 31 - 2011 0 Comentário

No nascente mercado de streaming de audiovisual na internet, é especialmente útil observar com atenção negócios como a Apple TV e o Youtube. As atuações de empresas extremamente diferentes, mas que, ainda assim, atuam de forma complementar, num mercado de comunicação em permanente reformulação, surgem como um tema de intensa relevância. Some-se a isso a forma pela qual mecanismos tradicionais de negociação, como os direitos de propriedade intelectual e sua contraditória contribuição para renovar o poder de players tradicionais no mercado audiovisual, e tem-se um cenário instigante.

De fato, o Youtube possui extrema importância na história da convergência entre internet e televisão. Afinal, ao demonstrar de que modo é possível aproveitar os benefícios de assistir audiovisual através da rede, esse serviço foi principal fator de aprendizado do público nesta tarefa. O curioso é que o YouTube pode ser tudo, menos um sucesso comercial. Apesar de seus mais de um bilhão de acessos diários e da participação notável no cenário do audiovisual em rede, o YouTube não é uma empresa lucrativa, demonstrando que êxitos de faturamento e público podem não caminhar juntos.

Menos conhecida e mais segmentada, a Apple TV surgiu em 2007, com a intenção não de competir diretamente com o Youtube, mas de ser uma fonte própria de rendimentos a partir de serviços de outras firmas, gerando lucro para a Apple. A histórica corporação de hardware apostava num set-top box que permitisse acesso privilegiado ao iTunes Store, formando uma espécie de rede entre ambos os serviços. Na realidade, o serviço opera como uma locadora online, que aluga instantaneamente, via download, seriados e filmes por preços bastante convidativos (cerca de US$ 0,99 cada). Assim, embora não seja encarada como um produto de propriedades revolucionárias no cenário da convergência da internet com a televisão, a Apple TV é um sucesso financeiro.

O YouTube hospeda e veicula qualquer tipo de vídeo, enquanto a Apple TV distribui apenas audiovisuais que já possuem um público definido (filmes lançados no cinema e seriados transmitidos em grandes canais televisivos). Suas diferenças são o ponto principal. Os novos negócios de streaming amador têm a obrigação de afirmar a relevância de seu conteúdo. De outro lado, os negócios de streaming de audiovisual premium possuem conteúdo relevante por si só. O principal problema do segundo grupo é recorrer a acordos que permitam utilizar material já conhecido pelo público, na verdade mais simples e convencional.

Aqui uma contradição: se um empreendimento de internet não agrega conteúdos televisuais próximos do imaginário do público, terá dificuldade de obter sucesso financeiro, no curto prazo. Se, ao contrário, a iniciativa aposta no previamente experimentado, deixa de participar de um processo de inovação que, em algum momento, deverá trazer resultados positivos econômicos, não obstante no plano do fazer comunicação desde o início traga bons dividendos. Velhos padrões ainda possuem uma intensa capacidade de sobrevivência, mas a lógica da PluriTV – esta televisão que está em todos os lugares, com maior ou menor protagonismo – prevê que, a seu modo, cada modalidade televisiva acabe construindo seu próprio modelo de financiamento, podendo haver mais de um até em uma mesma plataforma.

Tal constatação afirma-se através de – outra – velha estratégia de distribuição de conteúdo. A distribuição de um audiovisual possui etapas, formando as janelas de exibição. Um filme é lançado no cinema, posteriormente distribuem-no em DVD; depois, licenciam-no para canais de TV por assinatura e, finalmente, ele é liberado para a televisão aberta. Para o streaming, a questão tem sido delimitar o lugar de tal projeto neste antigo circuito. Serviços como a Apple TV surgem como uma alternativa, comprometendo possivelmente as próximas etapas. Existe um risco de ele canibalizar o negócio de TV paga, roubando espectadores e tornando-se uma espécie de rival.

A interação eficiente entre diversos elementos é extremamente proveitosa para negócios de comunicação concentrados. Num processo de sinergia bem articulada, a transição de uma etapa de veiculação para outra dá-se sem problemas. Pode-se poupar esforços de marketing, uma vez que o grande público já conheça o produto. A digitalização – palavra chave na convergência entre televisão e internet – permite uma reapropriação mais rápida e barata, tornando um programa mais relevante por mais tempo. Em todo este ciclo, a negociação de direitos autorais torna-se paradoxalmente importante para estes benefícios serem obtidos. Sem ela, não é possível o processo de sinergia.

A partir deste debate, é possível inferir que existe a possibilidade de visualizar os negócios de streaming como um experimento a ser internalizado por grandes corporações. Considerando a extensa consolidação das últimas décadas, vê-se que isso é extremamente viável já que, a partir daí, os negócios de streaming deixam de ser um rival dos serviços de televisão por assinatura, passando a ser um aliado. Isto conferiria ainda mais poder às grandes corporações, obtido através exatamente de velhas estratégias de controle de conteúdo.

*Artigo produzido em parceria com o bolsista Bruno Bottega

Valério Brittos, professor da Especialização Unisinos. Doutor em Comunicação. Atualmente é professor titular do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos, vice-presidente da Unión Latína de Economía Política de la Información, la Comunicación y la Cultura (ULEPICC-Federação), além de participar de outros projetos.


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àsagosto - 13 - 2011 0 Comentário
euroA Grécia vive, já há alguns meses, uma severa crise econômica, com implicações sociais e políticas que vemos ou lemos todos os dias nos diversos meios de comunicação. Esta crise traz uma série de lições, especialmente no campo econômico. O que eu receio é que estas lições não estejam sendo aprendidas pelos governos europeus, o que pode gerar, até mesmo em curto prazo, crises parecidas em outros países da região.

A ideia de uma União Européia que englobe até mesmo a moeda é boa, mas os desafios para colocar isso em prática são imensos, e não se tem certeza se são obstáculos que podem ser vencidos. Uma moeda única pressupõe condições econômicas muito homogêneas. Esta homogeneidade teria que se dar em aspectos tão distintos como: orçamento e políticas públicas, níveis de infraestrutura, níveis de instrução da população, desenvolvimento tecnológico etc. Se quiséssemos resumir isto, poderíamos falar em nível de competitividade.

Isto não ocorria no momento da união monetária, há pouco mais de 10 anos, e ainda não ocorre. Existiram tentativas neste sentido. Os orçamentos públicos de cada país, em tese, deveriam ficar dentro de alguns parâmetros, que não foram obedecidos. A União Européia (leia-se países mais ricos) distribuiu recursos para os mais pobres construírem razoável infraestrutura, que pode ser notada numa simples viagem à Europa. O grande problema é que alguns desequilíbrios não se desfazem em poucos anos.

O que temos hoje? Países como a Grécia, Portugal, Espanha e Itália, para ficar apenas nos mais problemáticos, altamente endividados, com pouca ou nenhuma possibilidade de crescimento econômico, e muito menos competitivos do que Alemanha e a própria França, mas que têm a mesma moeda. Porque falamos na moeda? Porque uma solução clássica na economia para a falta de competitividade é a desvalorização da moeda de um país. Mas isto não pode ser realizado, a moeda é única, a política monetária é única.

Tenho a impressão de que os custos sociais da manutenção da unidade monetária são tão elevados que não serão possíveis do ponto de vista político. Uma eventual saída destes países da união monetária poderia trazer uma dinâmica econômica que permitiria uma evolução mais rápida para a solução dos seus problemas. Esta via deveria ser avaliada e, ao que parece, é o que se está tentando evitar. Enquanto isso, a crise avança.

Francisco Zanini, professor do MBA Unisinos. Doutor em Contabilidade e Organização de Empresas. Tem 15 anos de experiência executiva no Mercado Financeiro, atuando também como consultor de empresas e em treinamento empresarial. Atualmente é Diretor da Unidade Acadêmica de Educação Continuada da Unisinos.


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àsagosto - 12 - 2011 0 Comentário
O anacronismo da regulamentação das comunicações no Brasil é de conhecimento público. Na radiodifusão (televisão e rádio abertas), isso é mais nítido, tendo em vista a ausência de contrapartidas impostas ao uso do espectro eletromagnético, utilizado a partir de lógicas eminentemente privadas, com os resultados sabidos, em termos de concentração e falta de diversidade. Não obstante, a TV por assinatura também tem uma legislação incompatível com as necessidades do país e incoerente, como nas diferenças de exigências para operação de cabo, satélite e microondas, sendo muito maiores no caso da primeira tecnologia, com (corretas) obrigações de transmissão de canais específicos e abertura de espaços para iniciativas sociais, além de restrições (parciais) para o capital estrangeiro.

Nesse quadro de atraso a ser corrigido é que devem ser interpretadas as resoluções da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) para o sistema de outorgas e regulação do mercado de TV a cabo. Anunciadas oficialmente em 4 de junho deste ano, visando à substituição da já ultrapassada Lei do Cabo, de 1995, deve impactar um setor há 10 anos fechado para novas empresas e concentrado. Entretanto, estas resoluções normatizam um tema que já vinha sendo debatido anteriormente pelo Congresso Nacional, através do Projeto de Lei da Câmara (PLC) nº 116, de 2010. A Anatel parece ter reunido propostas já existentes, que sofrem com o rumo das negociações políticas, cuja lentidão dificulta a votação.

Contudo, as resoluções da Anatel e o PLC 116 não são iguais. Lançado em 2010, como sucedâneo do PLC 29, o PLC 116 objetiva a abertura do mercado de televisão a cabo para qualquer companhia interessada. A mudança de maior impacto é a autorização para empresas de telecomunicações, independentemente de sua composição acionária, poderem comprar outorgas e participar como prestadoras de serviços de TV a cabo para o consumidor final. Todavia, a Anatel não incluiu na sua proposta a remoção da restrição para empresas que possuem mais de 49% de capital estrangeiro de entrar no mercado, beneficiando diretamente a Oi, única das teles enquadrada nas regras propostas, o que pode levar às demais empresas de telecomunicações (leia-se Telefônica e Embratel) a adotar medidas judiciais contra empresa brasileira e contra próprias medidas da Anatel, atrasando o processo de alteração.

A decisão da Agência de tomar a frente na abertura do mercado de TV a cabo deve ser analisada com cuidado. De um lado, o Brasil não pode ficar indefinidamente aguardando uma decisão congressual, sendo que, aliado ao devido conhecimento técnico, a Anatel possui mais agilidade para aprovar o novo sistema de outorgas, abrindo o mercado para outras empresas. De outro, o Congresso é o lugar por excelência das decisões legislativas, como espaço político legítimo de confrontação de idéias e definição de proposições, sendo o debate e a negociação inerentes à sua dinâmica, o que requer tempo, o qual, no entanto, não pode ser indefinido. O PL 116 está parado no Senado e, apesar de ser prioridade para o Governo, sua votação tem sofrido constantes adiamentos, com expectativa de ser votada em agosto.

Desde os primeiros movimentos para a modificação do marco regulatório na área da TV paga neste século, transparece a disposição para a abertura do mercado, um intento que não é geral, encontrando maiores resistências especialmente junto aos radiodifusores. Assim, chama atenção a brecha aberta pela Anatel, que possibilita apenas para uma das grandes empresas de telecomunicações o ingresso em um mercado de alcance limitado, mas com grandes efeitos. Da forma como cada espaço do mercado é intensamente disputado por agentes de diversas áreas, nesta Fase da Multiplicidade da Oferta, é esperada uma forte briga entre as próprias empresas para que seja decidido se haverá restrições ou não.

Tais fatos transcorrem em um momento de pressão para aprovação de iniciativas herdadas do Governo Lula, como o Plano Nacional de Banda Larga (PNBL). Abrir o mercado para novas participações também é de interesse do Estado, seja para arrecadar recursos com as vendas de novas outorgas e suas posteriores operações (via tributos), seja para a (indispensável) ampliação do alcance do serviço de telecomunicações no seu todo. Além disso, a entrada dessas empresas no cobiçado mercado de distribuição de audiovisuais por cabo pode ser interpretado como uma forma de compensação do Estado por eventuais perdas (ou lucros reduzidos) que venham a obter na operação do pacote de banda larga popular.

*Artigo produzido em parceria com o bolsista Lucas de Abreu
Valério Brittos, professor da Especialização Unisinos.<br />
Doutor em Comunicação. Atualmente é professor titular do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos, vice-presidente da Unión Latína de Economía Política de la Información, la Comunicación y la Cultura (ULEPICC-Federação), além de participar de outros projetos.


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