Crise de identidade, quem nunca?
Quando, na metade dos anos 1920, a alta costura figurava como uma das principais causas de movimentação do comércio exterior da França, se começava a enxergar o nascimento do prêt-à-porter. As coleções de alta costura eram apresentadas em Paris aos representantes estrangeiros que, a partir do desfile, escolhiam os modelos que, mais adiante, iriam ser produzidos em larga escala e vendidos no exterior. O prêt-à-porter representa até hoje o lado mais comercial da moda e segue orientando a indústria mundial.
Recentemente quando Hedi Slimane apresentou sua segunda coleção para a marca Yves Saint Laurent, a comercialidade de suas roupas chocou. Não houve quem se atreveu a fazer apenas um comentário positivo sobre tamanha obviedade de sua criação. Era o grunge dos anos 90 do mesmo modo que havia sido apresentado na época. Não era uma releitura, era apenas blasé. Desapontou a crítica, mas o que dizer de Hedi se aos compradores sua coleção agradou?
Comercialidade, de fato, parece ser a palavra de ordem no momento. A nomeação de Alexander Wang como novo diretor criativo da Balenciaga, é prova disto. Como um jovem de 29 anos cujas criações estão enraizadas na cultura californiana de sua adolescência, e mais tarde no street chic de NY de sua época de estudante, justificaria a substituição do austero francês, Nicolas Ghesquière? A contratação do mestre do sportwear foi uma grande mudança de rumo para a grife que justificou a escolha do novo designer, dizendo que espera que a Balenciaga de Wang seja “acessível” o que é mais uma maneira de dizer que espera que seja mais vendável.
Vivemos um período de transição onde o lifestyle do momento exige mudanças de rumo. O muito criativo não vende e para obter sucesso comercial imediato, muitos estilistas seguem menos os seus instintos e mais as tendências. Atualmente o DNA das marcas se encontra não na última temporada de desfiles, mas nos brechós ou no guarda roupa de nossas avós.
Hedi não colocou o óbvio na passarela por falta de criatividade, assim como a empresa não pediu ao estilista que remoçasse sua proposta por falta de estratégia. Há um mercado a ser atendido e a nova geração de consumidoras de grifes icônica associa a tradição com um estilo vindo das ruas. No livro Império do Efêmero, Gilles Lipovetsky fala sobre o fim das diferenciações de vestuário entre classes com a simplificação deste: “… a exibição de luxo tornou-se signo de mau gosto, a verdadeira elegância exigiu discrição e ausência de aparato, a moda feminina entrou na era da aparência democrática”.
Espera-se que desta vez democrática não signifique apática.
Por: Luiza P. Fichtner
Referências:
Vogue Brasil Novembro 2012
Gilles Lipovetsky, 1987. O Império do efêmero – Capítulo “A moda dos cem anos”





