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A charge política jornalística como processo sígnico
Que papel ocupa a charge jornalística no universo da comunicação midiática? Que recursos fazem da charge um sistema de linguagem altamente corrosivo, que pode ferir e minar o poder? Seria a charge um campo de forças ideológicas que desmascara, pela galhofa, o mecanismo dos dominantes? Como se opera o diálogo entre a charge e o jornal? Essas questões norteiam esse trabalho, e, na busca de quase-respostas, implementamos nossa empreitada alicerçadas pela teoria semiótica peirceana como base de investigação que oferece meios para realizar a análise de uma estrutura sígnica, e, para examinar seu caráter ideológico, aliamos à teoria peirceana o instrumental teórico de Bakthin/Volosinov. Sabemos que, no interior das ciências da linguagem, várias disciplinas se ocupam da significação, tais como Semântica Discursiva, Hermenêutica, Análise do Discurso, Semiótica, entre outras. Todas elas elegem a significação da linguagem como foco de análise, mas se destacam pelos seus próprios métodos, instrumentos e quadros metodológicos. Escolhemos, dentre elas, a teoria semiótica de Charles Sanders Peirce por partirmos da concepção de que “todo propósito de um signo é aquele de que ele deva ser interpretado em outro signo” (Peirce in Santaella, 2004, p. 87). Assim, o signo só completa o seu percurso se houver um interpretante, terceiro elemento da tríade signo, objeto, interpretante que, para Peirce, compõe o signo genuíno. É o interpretante que impulsiona a ação, a atividade relacional do signo, cumprindo o seguinte trajeto: Um signo intenta representar, em parte, pelo menos, um Objeto, que é, portanto, num certo sentido, a causa ou determinante do Signo, mesmo se o Signo representar seu Objeto falsamente. Mas dizer que ele representa seu Objeto implica que ele afete uma mente de tal modo que, de certa maneira, determine, naquela mente, algo que é mediatamente devido ao Objeto. Essa determinação, da qual a causa imediata ou determinante é o Signo, e da qual a causa mediada é o Objeto, pode ser chamada de Interpretante (Peirce in Santaella, 2004, p. 62). A charge constitui-se como um sistema de signos ou um sistema de linguagem. Segundo Santaella (2001, p. 374), “no seu avanço rumo ao objeto que representa, a linguagem é colocada frente a frente com o impossível, pois na sua pretensão de alcançar e agarrar o referente, a linguagem não pode senão arranhar o muro do ‘real’”. Ocorre daí uma imprevisibilidade de sentidos, suscitados de acordo com novas informações e relações operadas numa mente interpretadora que, por sua vez, processa uma infinita geração de signos que Peirce denomina semiose. Diante disso, pensamos ter justificadas as quase-respostas que esta leitura pode trazer à baila. Feita essa ressalva sobre a incompletude da linguagem e sua abertura para outras apreensões de sentido, começaremos por descrever a charge que comumente se apresenta como um texto híbrido – visual-verbal – e, a partir desse cruzamento de sistemas de linguagem, procuraremos estabelecer os mecanismos responsáveis pela produção de sentidos dentro do universo da comunicação midiática. Lembremos aqui que estamos entendendo linguagem como alguma coisa que substitui outra e produz em uma mente algum efeito. Sendo um sistema de linguagem que se constitui de elementos gráficos – linha, forma, direção, cor, escala ou dimensão, dimensão e movimentos... – a imagem é uma representação que realiza a mediação simbólica necessária e inerente ao ser humano. Nessa linha de pensamento, somos seres simbólicos: entre eu e o outro se interpõe uma rede de signos que nos permite compreender o mundo e armazenar informações. É a linguagem que constrói a ponte necessária para percepções, orientações, ações, compreensões daquilo que chamamos realidade. Toda linguagem funciona como tal porque representa (símbolo), indica (índice) ou sugere algo (ícone): esta é a classificação peirceana do signo com relação ao objeto e terminologia de que lançaremos mão no desenvolvimento de nossas idéias. Há na charge um plano de natureza predominantemente icônica – relativo à imagem enquanto representação do real – que age como interpretante do verbal (símbolo), podendo esse último – o texto verbal – configurar-se na própria charge ou estar embutido em outras partes do jornal. A presença desses dois códigos constitui a natureza dialógica da charge: palavra e imagem habitando um mesmo espaço intra ou extracharge (charge/jornal) estabelecem relações de redundância, complementaridade ou, até mesmo, de discrepância. Independentemente da relação que estabelecem, texto visual e texto verbal dialogam nesse sistema de linguagem sobre o qual nos debruçamos. O texto icônico que compõe este sistema de linguagem, feito de linhas e formas que encerram idéias, conceitos, constitui-se de: a) oposições puras (vertical/horizontal; preto/figura; branco/fundo); b) predomínio de retas, curvas, diagonais que elaboram a deformação caricatural, usando os traços hiperbólicos que se tornam rudes a partir do momento em que o signo se “engravida” de ideologia. Pensamos que isto se dá devido ao fato de que todo signo tem um objeto, ou seja, todo signo se refere a um existente do mundo. O modo como ele se apresenta – fase da referência, fase de significação – é composto de qualidades, de elementos que o caracterizam em relação ao objeto. O signo denuncia o modo como o referente está presente dentro dele (do próprio signo), e, neste momento, o signo se enche de ideologia. Neste ponto, faremos uma breve incursão pela teoria de Bakthin/Volosinov que dá sustentação às nossas idéias. Todo sistema de linguagem ou de signos é objeto da cultura, é, portanto, “produto, fruto de processos de produção cultural e conseqüentemente de práticas: as práticas nas e com as linguagens que o homem cria, reproduz e transforma” (Santaella, 1980, p. 38). Enquanto parte da realidade material em torno do homem, a charge – sistema de signos – é também um produto ideológico. Segundo Bakthin/Volosinov, todo signo é ideológico, e a ideologia se revela por meio do material acessível objetivamente: palavra, som, gesto, combinação de massas, linhas, cores, corpos vivos, etc. Em suma, a ideologia não pode estar divorciada da realidade material dos signos. A charge, como produto ideológico que é, apresenta a dupla face do signo. Através da materialidade significante – grafismo, texto verbal, traço humorístico – virá à tona essa duplicidade: ao refletir a realidade, a charge compactua com o sistema, assumindo a força do discurso competente – o discurso cuja linguagem é institucionalmente permitida ou autorizada; ao refratar a realidade, ela deixa escapar as fissuras da dominação. Ou seja, ao deformar, a caricatura aponta para outro discurso, para outro signo, para outra linguagem. É na deformação do referente original que existe o desvio revelador do aspecto ideológico. É nesse desvio que o signo, ao refletir, quebra a direção e transforma, transfigura, refrata a realidade. No dizer de Gombrich (1979, p. 136), “aqui também nós podemos falar das perícias no trabalho fisionômico em um sentido mais amplo: a capacidade do artista de fazer-nos ver além, em vez de apenas conhecer intelectualmente os significados que o símbolo tem para ele”. A imagem ganha poder na capacidade de deformação dos traços sem perder a ligação com o referente – alvo de crítica. Essa perícia de que nos fala Gombrich possibilita uma união entre a charge e seu referente. O próprio processo caricatural, cheio de linhas simples e primitivas – elementos básicos ou matérias-primas da imagem: linha, superfície, volume, cor, luz – já se encaminha para o exagero hiperbólico que, por sua vez, se dirige para a tessitura metafórica. Lembremos que, diferentemente das palavras, os elementos visuais não são significados preestabelecidos antes de entrarem num contexto formal. A linha e os outros elementos, ao participarem de uma composição, configuram o espaço de modo diferente e, conseqüentemente, ao caracterizarem o espaço, os elementos também se caracterizam. Senão vejamos: a linha, articuladora da forma, configura um espaço linear, com uma dimensão. Através dela, apreendemos um espaço, seja ela uma linha qualquer que introduz intervalos ou um contraste de direção. Conseqüentemente produz formas básicas – círculos, quadrados, retângulos, etc. – isto é, corporifica e dá forma ao objeto. Continuemos, pois, elencando os elementos de que se constitui o texto icônico: c) variação de tipos gráficos que informam sobre suas qualidades icônicas, possuindo as letras gestualidade; d) justaposição de códigos (verbal/visual) que se completam ou se anulam; e) deformação das linhas via figuras de retórica. O próprio discurso político é reduzido a situações metafóricas, razão pela qual é a metáfora por conflito a figura inerente à linguagem da charge. Metáfora aqui adquire o sentido de montagem eisensteniana: o que a caracteriza é “o conflito entre dois pedaços, um em oposição ao outro. O conflito. A colisão” (Eisenstein, 1977, p. 76). Ao realizar a fusão e a condensação de elementos díspares, as charges que conseguem realizar o jogo de reflexo e refração da realidade operam o choque, fazendo “explodir o real, chocando ao extrair uma contradição duma identidade” (Dubois, 1974, p. 157) ou forjando “contraditoriamente a identidade de dois significantes” (Dubois, p. 151). Deste choque revela-se uma relação essencial entre os termos confrontados, fruto, portanto, de um processo dialético. Impõe a metáfora uma fusão entre o dentro e o fora, entre o material significante e o universo sociopolítico, ao mesmo tempo em que transpõe o diálogo para os interstícios do corpo gráfico da charge, agindo na própria estrutura sígnica, no entrecruzar de linhas, formas, direção. Sabemos ser a charge uma imagem impressa como outra qualquer, no entanto, ela se caracteriza pela agressividade dos traços. Por agressividade entendemos a intencional deformidade dos traços que o exagero imprime. Nesses traços está a refração. Desta forma, no processo estrutural, há um agenciamento de outras figuras de retórica tais como antítese, hipérbole, metonímia etc., que concorrem para a formação da metáfora maior. Assim, contrastes tais como luz e escuridão, bonito e feio, grande e pequeno que formam as coordenadas do universo mítico do desenhista, não poderiam ser tão eficientes se nós todos não fôssemos inclinados a categorizar o mundo à nossa volta em tal metáfora emocional básica (Gombrich, 1979, p. 140). Vejamos como esses aspectos se presentificam nas charges3 a seguir. A primeira charge, da Folha de S. Paulo, é de 19/08/1982. Para Roberto Srour (1982, p. 15), “um evento só se torna inteligível quando for localizado numa teia de relações explicativas” ou numa conjuntura. Segundo o autor, “a conjuntura define-se como um corte no fluxo dos eventos históricos, vale dizer, representa um momento particular do confronto de certas forças sociais. Para estabelecer as balizas que se enquadram numa dada conjuntura, é preciso, pois, conhecer o elenco de contradições em jogo.” Deste modo, cabe-nos descrever os fatos que delineiam o ano de 1982, período que antecedeu as eleições diretas para governador, depois de 17 anos de jejum eleitoral. Eis um breve panorama4. O mês de novembro de 1979 foi particularmente importante na política brasileira, na medida em que foram lançados os primeiros dispositivos que iriam delinear o processo eleitoral de 1982. A manipulação do processo começava a tomar forma... Novembro de 1979 foi marcado pela extinção do bipartidarismo. Ao ser decretada morte à Arena e ao MDB, a oposição fragmentou-se em facções: PDT, PTB, PP, PMDB, e o partido do governo passou a denominar-se PDS. Novembro de 1981 teve como marco o memorável “pacote eleitoral” que trazia em seu bojo determinações claramente arbitrárias: a proibição das coligações partidárias e a vinculação dos votos de vereador a governador de Estado. Com isso, iniciou-se uma série de tramas e truques de que o governo lançou mão para defender o seu poder. Inscrevia-se assim a forma “democrática” com que se inaugurava o processo eleitoral. Uma série de casuísmos brotaram do alforje dos detentores do poder: abolição do voto legenda, ampliação das bancadas, o voto camarão, o voto domiciliar, o retorno da Lei Falcão que restringia a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV. O “pacote de abril” aumentava ainda mais as restrições. Estava instituída a lei do silêncio: um desfile de retratos três por quatro, tendo a fala de um locutor em “off” fornecendo dados biográficos dos candidatos, era no que consistia a propaganda política. Houve, ainda, o lançamento da “Cartilha da Abertura”, a propaganda do voto útil, entre outros casuísmos. Nas entrelinhas desse panorama político, as forças governistas organizavam uma campanha lastreada no uso e abuso do poder econômico, na manipulação da máquina estatal, no comércio de votos. E como pano de fundo: a inflação crescente, a concentração de renda, a recessão econômica com sombria ressonância social, o achatamento de salários, o aumento da taxa de juros; e a censura continuava calando... Pois bem, diante do compromisso assumido com o povo, o de “fazer desse país uma democracia”, vejamos como essas “palavras de ordem” são traduzidas pelas charges escolhidas para representar o período. ![]() A charge em questão é composta de traçados simples que reforçam as principais características visuais da personagem representada: o ministro da Fazenda do governo Figueiredo, Delfim Neto, figura notória na política brasileira. Linhas curvas, retas e diagonais tecem o interior da massa sígnica, intensificando o movimento, o ritmo. Mas são as linhas curvas as predominantes na articulação do contorno ou da forma da realidade física do signo, determinando assim sua qualidade e seu modo de ser. O contorno determina uma direção e, se traçarmos duas diagonais de cada lado da figura, partindo da linha horizontal que funciona como base estabilizadora, obteremos um triângulo eqüilátero cujo vértice superior recai na própria cabeça da personagem/personalidade representada. As diagonais sugerem um significado provocador: sugerem ação, conflito e tensão. Outros elementos compositivos concorrerão para reforçar este significado. Esse jogo de formas que sugere o contorno de um triângulo faz irromper o ícone, signo que representa o objeto por semelhança ou similaridade. O ícone encaixa-se na categoria da primeiridade peirceana. E aqui, abramos um parêntese, a fim de lembrar que, para Charles Sanders Peirce, todo fenômeno é revelado à luz das categorias que nos permitem ler o mundo como linguagem: primeiridade, secundidade e terceiridade. A esfera da primeiridade traduz-se em mera qualidade, uma possibilidade, estado de potência. Ora, onde quer que haja um fenômeno há qualidade, mas a qualidade para existir tem de estar encarnada numa matéria. Essa corporificação material é o passaporte para a segunda categoria, a secundidade. Nessa esfera, impõem-se esforço e resistência. Choque, reação, conflito, ação mútua de duas coisas sem relação com um terceiro e sem levar em conta qualquer lei da ação. Está presente mesmo num fragmento rudimentar da experiência, como uma sensação. Finalmente, o que é terceiro implica estado de consciência, generalização e lei e se evidencia como representação. A categoria da terceiridade é a categoria de signo genuíno ou representação. A essas três classes pertencem todos os elementos da experiência. De volta à charge, a forma que à primeira vista parece ocupar a zona central do espaço-formato apresenta maior densidade na sua metade esquerda, o que intensifica a tensão e, conseqüentemente, o peso. A área onde se concentra mais peso possui uma força dominante que subordina a área de menos peso. Estabelece-se uma hierarquia: peso/contrapeso, ação/reação, e é através desses pares de opostos que se estrutura o equilíbrio. O peso concentra-se também no espaço inferior da charge – pés – e, segundo Kandinsky (1975), quando o peso se localiza no espaço inferior evoca grosseria, prisão, autoritarismo, índices sintomáticos para a apreensão do sentido dessa charge. As formas se organizam de tal maneira que o percurso do nosso olhar se faz de maneira descendente e repousa na parte inferior, elemento produtor da ação/reação, o que nos avisa estar a charge nos meandros da secundidade peirceana. O ritmo que se manifesta no contorno, na intensidade das relações, também se presentifica no inter-relacionamento das metades esquerda e direita do espaço-formato, na medida em que a posição dos pés sintetiza dois movimentos: energia e repouso. Isto se relaciona com o fato de que a energia proveniente do detentor da força – Delfim Neto – não foi acionada: um pé/mão repousa para assinalar a distorção, produzir o interpretante e avisar de suas possibilidades maiores. Funciona o repouso como ameaça. A configuração visual da charge traz intrínseca uma força imperativa, que exclama e apela. Diríamos até que ela assumiria o papel de um vocativo (numa apropriação do verbal) que força o receptor a observar o desconcerto, o destronamento operado pela charge e a reagir. Outros procedimentos da linguagem verbal também se manifestam na imagem: a hipérbole se manifesta no exagero da massa sígnica que ocupa grande parte do campo visual, manifesta-se no exagero do gesto do então ministro. É a hipérbole a responsável pela distorção, pela carnavalização. Aliada a outros elementos formais, cabe a ela acentuar o processo crítico e produzir a secundidade, o universo da ação/reação, “ao agir sobre objetos externos e sobre o próprio eu” (Peirce, 1972, p. 97). São fatos agindo sobre fatos – a charge agindo sobre o jornal. Mas entre essas duas ações existe um conflito, isto é, matéria jornalística e charge se chocam, do mesmo modo que as linhas intracharge se chocam entre si. Há, portanto, o esforço e a resistência entre duas coisas opostas. Há um fato que gera uma reação, e desta interação eclode o interpretante. Ainda, advinda da manifestação do conflito, surge a antítese, outra figura de retórica que se manifesta no choque entre linhas retas, curvas e diagonais, no peso e contrapeso, nas cores preto e branco. A antítese superpõe duas realidades e revela o desacerto entre elas. Acentua a crítica, a mordida no poder. É da antítese que se estabelece o choque entre o que é e o que foi, entre charge e pronunciamento de Delfim. A antítese instala o poder corrosivo. Finalmente, a metáfora que se manifesta na substituição das mãos pelos pés funciona como matriz geradora do estranhamento provocado pela composição. A metáfora reúne em si a energia concentrada pelas linhas, cores e formas. É ela que age como soco visual, produtor do riso, do humor e passa a agir como metáfora da arbitrariedade e do autoritarismo dos homens que detinham na época o poder. É através da postura (ou impostura), do comportamento dos elementos geradores da forma fisionômica do signo, da sua articulação no campo visual que podemos aterrissar no processo de organização do significado. Cada elemento visual detectado – linhas, contorno, direção, volume, proporção, peso, movimento... – conduz, como estamos mostrando, à gama dos significados criados pela composição. Assim, a massa física, o peso, a posição da figura funcionam como índices, como elementos de conflito. Produzem a secundidade, a experiência de estar diante de alguma coisa que, pelo estranhamento provocado pela metáfora, desautomatiza a percepção, acionando uma reação que leva a um interpretante: o autoritarismo do poder. As linhas fragmentadas – ícones da força – que se desprendem dos pés-punho fisicalizam a arbitrariedade. O afunilamento da cabeça do ministro – vértice do triângulo – indica incapacidade intelectual. A inversão dos membros pés/mãos estabelece a anarquia textual, o que nos remete à anarquia contextual, revelando a idéia de desordem e confusão, elementos que se destacaram naquele momento da vida política brasileira – eleições de 1982 – conjuntura da qual ela não pode estar descontextualizada sob pena de tornar-se anacrônica e vazia de relações. O código verbal – “Eleições exigem competência” – estabelece um diálogo conflituoso com a imagem na medida em que, ao acionar a atividade relacional, se produzem signos que se chocam, se anulam e se completam. Num primeiro momento, observamos que a palavra “pé” está presente anagramaticamente na palavra com(pe)tência, e só dessa forma o ministro consegue entendê-la, isto é, ele não consegue “enxergar” o significado da palavra, e sim o que ela sugere foneticamente: o ministro perde-se nas malhas do significante, daí o deslocamento e a presença literal dos pés na figura. Visual e verbal se completam. Num segundo momento, a fala da personalidade/personagem também se encontra deslocada da posição previsível: sai dos olhos e não da boca. Por outro lado, estão ausentes os olhos da figura, dada a opacidade das lentes, o que indica a “cegueira” que já é uma incompetência física. Tal diálogo proporciona o soco visual no símbolo (código verbal), revelando a outra fala que jazia subterrânea: foi legada competência a quem não a detém; ergue-se o ícone através de símbolos, que deixa vazar as fissuras da dominação, da arbitrariedade, desmascara o representado proporcionando-nos o ridículo, o grotesco, a desmistificação do autoritarismo. Desta forma, a charge opera – via carnavalização – o destronamento... “o destronado é despojado de suas vestes reais, da coroa e de outros símbolos de poder, ridicularizado e surrado” (Bakthin, 1981, p. 107). Esta carnavalização faz cintilar vozes dispares que se conflituam sem uma marca hierárquica, cria uma movimentação dinâmica dentro do texto; nivela, destrona e instala a marca do deboche – elemento necessário à realização da charge. Revelada a fissura, o signo volta-se contra si mesmo, rodopia e invade os limites do signo intratextual e intertextual (jornal) e produz um outro signo crítico e criativo. ![]() Na charge acima, de Chico Caruso, de 07/09/1982, no Jornal do Brasil, as massas visuais concentram-se na zona central do espaço-formato, como elementos únicos e absolutos, o que ressalta o peso que tais formas assumem. Essas massas visuais distribuem-se entre duas figuras dispostas hierarquicamente: o presidente João Figueiredo e a urna. A hierarquia estabelece a “semiótica do poder” justamente pelos ícones de volume, tamanho e pela relação de proporção. O jogo de elementos estruturais conduz a imagem a um equilíbrio radial, visto que há um movimento giratório em redor de um plano central, ou seja, o espaço em branco atua como signo de uma nação que gira em torno das decisões arbitrárias de um único homem: nação ausente das decisões do país. Para atrair a atenção, a técnica do contraste. A ela cabe intensificar o significado dramático para torná-lo mais importante e dinâmico. Opõem-se tons – branco/preto – opõem-se volumes. Dessa relação salta o significado: o presidente que propôs abertura do processo democrático é aquele que fecha a “boca” das urnas com as artimanhas dos atos adicionais, um perfeito casuísmo para a manutenção do seu partido no poder. Neste contexto, ergue-se o pé como metonímia que se metaforiza na montagem do significado de um poder grosseiro, desleixado, arbitrário que, a bel-prazer, decide sozinho os destinos de uma nação e obstrui a voz das urnas, reafirmando um governo ditatorial. Esse desleixo, esse autoritarismo, esse desprezo pela voz do povo se configura ainda no pé sem sapatos que veda a urna, nas roupas esporte, na superioridade do olhar. Esses índices unem-se para formar a metáfora da força na direção dos destinos do país. O fato de o presidente ter um dos pés calçados num sapato social preto e o outro que deveria calçar um tênis suscita uma relação inusitada pelo estranhamento que provoca, levando-nos a percebê-lo como possibilidade de opressão maior, como uso de uma força mais bruta. É o índice final que se encaminha para completar a metáfora/ícone do abuso do poder, cuja similaridade se entranha nos próprios elementos significantes: os tempos negros são apenas parciais, poderão ser totais. Disto resulta o humor amargo, ácido e cortante. Por que não trágico? Isto posto, na busca do ideológico cifrado na concretude de suas formas, vislumbramos a charge como um sistema de linguagem. Ideológico aqui entendido enquanto representação falseada do real, enquanto teia de ilusões que a charge tenta perfurar, descobrindo os véus, revelando as artimanhas e minando a força dos dominantes. Neste ponto, instala-se o diálogo charge/poder que vai se processando a partir de dispositivos – paródia, carnavalização, metáforas – que auxiliam a charge na retirada das marcas coladas à face dos donos do poder. Descobrir o que está subjacente, adormecido nos interstícios do signo, na sua qualidade material que se revela à luz da ação interpretante por força de choques é o fascínio que o trabalho semiótico nos proporciona. Esta informação de primeiro grau nunca é periférica ou artificial, pois explode do signo heurístico por excelência – o ícone – erguido pelas marcas indiciadoras. A charge revela-se como um traço da história, na medida em que capta o ocorrer do processo no seu acontecer. Sintetiza o fato registrando de forma astuciosa e sagaz a imagem do seu tempo, legando às futuras gerações o modo de ver-sentir-pensar-deliberar de uma época que o tempo modifica. Registra-se como num instantâneo a visão popular perante um fato, um dado aspecto do contexto sociopolítico: registra a confluência de ideologias vigentes indiciando uma sociedade que se vê, que reflete e indaga sobre si própria. Traz à luz aspectos relevantes do cotidiano condensando-os numa única configuração – imagem de impacto – captando o real na sua dinamicidade. Enquanto signo ideológico por natureza, a charge reflete e refrata o contexto sociopolítico – seu objeto dinâmico, o que está fora do signo. Tal contexto perfaz-se mediante forças antagônicas advindas do choque entre o Estado e a sociedade civil. Estado enquanto expressão política da sociedade civil, dividida em classes, enquanto instrumento de dominação que se deixa flagrar nos aspectos cristalizados no corpo material da charge, na sua tessitura sígnica que se configura no objeto imediato – modo como o objeto dinâmico se instala dentro do signo. Desta maneira, o objeto imediato – dentro do signo – abre a fenda entre as forças antagônicas que pulsam no social. Essas contradições “não existem como fatos no mundo, mas são produzidas. A produção e superação das contradições revela que o real se realiza como luta” (Chauí, 1980, p. 39). Esse entrelaçamento – objeto imediato, objeto dinâmico – dá início à ação interpretante que age como força fruidora, receptora e crítica a um só tempo, e, por essa razão, o signo se esclarece e se revela. Senão vejamos. O intepretante dinâmico – que consiste no conjunto de interpretações que se consumam neste artigo – cuja especificidade está em resgatar a face social-ideológica da linguagem, aciona a eclosão do signo crítico e corrosivo que aqui funciona como o elemento refrator, contra-ideológico por excelência, na medida em que inaugura um novo modo de ver o contexto sociopolítico. Riso ambíguo que tem a força de desentronizar e ludibriar o poder. O riso provém do humor e, por isso mesmo, será alegria e reflexão. Será, pois, como instrumento “sério”, já que revelador, que o riso e o humor persistirão nas charges, numa forma de defesa, sendo uma afirmação que nega e uma negação que afirma. O riso, afirma Bergson (1938, p. 123), “é antes de mais nada uma correção”, mas é também uma “anestesia no coração: produz a diversão, produz a reflexão”. Riso que nasce a partir da constatação das contradições arraigadas no contexto sociopolítico e, portanto, cifrado nos seus interstícios como possibilidade de vir à tona. Enquanto possibilidade, está embutido nas malhas do interpretante imediato à espreita do resgate pelo interpretante dinâmico que efetivamente se traduz numa ação concreta em resposta ao signo. Deste modo, os interpretantes imediato e dinâmico enredam a vitalidade relacional, transformadora e renovadora da mente interpretadora, dinamicidade essa que se opõe ao estado entorpecedor do interpretante final, revelador da verdade última. Na teoria de Peirce, o interpretante final é sempre provisório, porque o signo jamais conseguirá reter do objeto a sua completude. É sempre uma parte desse objeto a representada, daí a provisoriedade das verdades... Finalmente, é como denúncia de seu tempo que a charge política encontra sua especificidade: sua força está em revelar as fissuras de um dado contexto no seu acontecer. A partir do momento em que se descontextualiza, ela perde sua capacidade de ação, ou seja, morre no instante mesmo em que a realidade se modifica. Daí sua transitoriedade, sua instantaneidade. Sua ação permanece viva até que uma outra conjuntura se interponha. Ora, as conjunturas políticas são movediças, o próprio político constitui-se num universo em constante movimento, em freqüente mutação, universo vivo e dinâmico que a charge reproduz no seu modo de formar. Desta forma é que a dimensão da secundidade – mundo de ação/reação – é dominante em ambos os universos: o da charge e o político. Essa é a força e a fraqueza das linguagens sob a dominância do aqui-agora. É por isso que, para finalizar este artigo, podemos, no momento atual, lançar uma pergunta invertida: não são aqueles mesmos que denunciaram e corroeram o poder na época revisitada – 1982 – que mereceriam agora ser denunciados e corroídos? NOTAS 1Professora da Universidade de Sorocaba; doutora em Comunicação e Semiótica, PUCSP. 2Professora da Universidade de Sorocaba; doutora em Comunicação e Semiótica, PUCSP. 3PAs charges escolhidas para análise referem-se às primeiras eleições diretas pós-ditadura. Tal distância do contexto atual justifica-se pelo fato de que a proximidade dos fatos políticos do momento pode comprometer a objetividade da análise. As charges em questão fazem parte da dissertação de mestrado de L. Souza, Charge política/jornalística: o poder e a fenda, defendida na PUCSP, 1986, sob a orientação da Profª Drª Lucia Santaella. 4Os dados contextuais foram colhidos da dissertação de mestrado de L.Souza, já mencionada. REFERÊNCIAS BAKTHIN, M. 1981. Problemas da poética de Dostoievski. Rio de Janeiro, Forense. BAKTHIN, V. 1979. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo, Hucitec. BERGSON, H. 1938. Le rire – essai sur la signification du comique. Paris, Ed. Paris, 157 p. CHAUÍ, M. 1980. O que é ideologia. São Paulo, Brasiliense, 125 p. DUBOIS, J. et al. 1974. Retórica geral. São Paulo, Cultrix. EISENSTEIN, S. 1977. O princípio cinematográfico e o ideograma. In: H. CAMPOS (org.), Ideograma: lógica, poesia, linguagem. São Paulo, Cultrix, p. 165-185. GOMBRICH, E. 1979. Arte e ilusión. Barcelona, Editorial G. Gili. KANDINSKY, W. 1975. Punto y línea sobre el plano: contribución al análisis de los elementos pictóricos. Barcelona, Barral Editores. PEIRCE, C. S. 1972. Os Pensadores. São Paulo, Abril. SANTAELLA, L. 1980. Produção de linguagem e ideologia. São Paulo, Cortez, 324 p. SANTAELLA, L. 2004. A teoria geral dos signos. São Paulo, Ática, 199 p. SANTAELLA, L. 2001. Matrizes da linguagem e pensamento: sonora, visual, verbal. São Paulo, Iluminuras, 413 p. SOUZA, L. C. P. 1986. Charge política: o poder e a fenda. São Paulo, SP. Dissertação de Mestrado, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUCSP 92 p. SROUR, R. 1982. Política dos anos 70 no Brasil: a lição de Florianópolis. São Paulo, Econômica.
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